O menino, a mãe e o bicho-grilo:
Menino: Mãeeeeeeeeeeeee!
Mãe: O quê?
Menino: Tem um negócio estranho lá na sala.
Passos até o objeto.
Mãe: Para, menino. Isso é a ponta de um cigarro de maconha. Caraca, você não sabe distinguir um cigarro, uma leguminosa e um bicho?
Menino: Tem bichos que eu não conheço…

Duas pessoas escolhendo uma sacola de presente.

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- Que tal essa?

- Ai não, isso é muito amor.

- Ok, leva uma sacola escrito ódio.

O lugar de Dóris

Publicado: maio 19, 2012 em Contos

Era coisa da Dóris. Aquela menininha de vestido listrado que andava com passos largos pelo chão da locadora. Que dava a volta pela sessão de infantis para poder alcançar o bolo de maçã com canela e fazer rodelas no chão daquele ambiente de trabalho.

Só eu notava que a pequena era uma buraqueira.

Às vezes me pergunto como pode uma menininha de cabelos lisos desses de fita de filme francês ter uma força tão grande quanto britadeira. Ela nunca precisou gritar nem espernear. Começava pelo pé com aquelas sapatilhas de boneca que por questão de brilho tinha um eco que ia da ponta da locadora até o banheiro.

Eu costumava dizer Psiu, menos. Mas ela não era uma pessoinha de regras. Parecia sorrir pra mim toda vez que eu pedia silêncio. Respondia com uma pisada mais forte como se sua felicidade fosse um vidro muito bem do limpo e o sapato dela fosse um aparelho polidor. Com ela perto eu tinha a impressão de que poderia achar qualquer coisa em qualquer pedaço de piso levantado, presa naqueles balões que só cachorros perseguem.

- Vá abrir buracos na casa da tua mãe! – tinha uma hora que eu exclamava com a vassoura em uma mão e a outra em meu cabelo metade branco metade cinza.

Mas ela gargalhava e acabava com mais um pedaço do piso, como se chão em espiral fosse mágico.

- Silêncio é um mundo parado, ela dizia.

Naquele dia de semana ela estava mais agitada, acho que a mãe havia lhe cortado os cabelos. Sei que quando ouvi o barulho a prateleira da sessão de clássicos de suspense já tinha despencado. Quando eu estava pronto pra falar exclamações e símbolos que representavam minha ira de dono de loja, as palavras ficaram engasgadas.

Um segundo barulho fez com que eu percebesse que meu corpo estava equilibrado em um único piso que por milagre não se despedaçou. E Dóris estava suspensa. Aquela menininha não estava assustada nem impressionada, mas suas sapatilhas bailavam no ar. A filha da mãe flutuava com um sorriso maroto, desses que dá vontade de matar.

- Ops, eu acho que o chão caiu.

Mandei a conta pra mãe. Certos clientes abusam demais.

 

 

- Às vezes a gente precisa de sabão em pó na alma.
- E se no outro dia fizer sol, a gente põe pra secar.
- Pena que eu não tenho máquina de lavar roupa.
- E o que isso impede?
- Minha alma fica mais amassada.
 

A moça e as coisas

Publicado: maio 16, 2012 em Contos

- Gosto muito de você, mas sinto muito.

E foi assim que ela cortou minha mão, ao som de Patti Smith. Era esse som que queria ter ouvido se tivéssemos eletricidade por perto. É muito estranho ouvir seu próprio membro sendo decepado. Eu deveria ter gritado, era isso que ela esperava, mas meus olhos ficaram cheios de nada. Vazio como se a dor estivesse presa em meus cabelos.

- Ben, você está me ouvindo?

Ela tinha as mãos cheias de líquido espesso. Colocou rapidamente o pedaço da minha parte esquerda dentro de uma sacola suja. A arma que tinha usado era afiada.

- Você irá sobreviver. Só temos que encontrar um jeito de sair daqui.

Benjamin Cant. Olheiras na face há sete dias sem dormir.  A moça. Era só a moça. Engoli seco, quando olhasse pra parte que faltava a dor viria em triplo.

- Não poderei mais tocar.

Quando olhei, eu já não tinha mais dedos e o que era braço parecia um pano surrado meio roxo meio cor de podridão.

- Ainda não senti a dor.

- O quê? – ela me perguntou coçando sua sobrancelha.

- Ainda não dói.

- Talvez seu cérebro esteja um pouco sem oxigênio. A dor virá.

Olhamos ambos para o céu. As pedras ao redor de nós pareciam nos proteger como uma pequena cabana perdida no além.

- E se ela não vier?

- Quer dizer que você irá morrer em breve.

- Desculpa por isso. Não deveria ter te trazido.

- Breve é um futuro que ainda não existe.

A dor veio. Em flashes. Eu vi a moça lutar contra as coisas que insistiam em querer devorá-la viva. Eu não me mexia. A dor era grande. Dessas que ficam presas demais nos cabelos. Eu a vi tentando se autodefender enquanto estava eu com imagens tremidas no cérebro. Ela enfiou a arma afiada na parte de trás da coisa que insistia em devorá-la. A coisa cambaleou por um instante, mas mordeu o braço que havia levantado e partiu em dois a coxa que havia ficado atrás. A moça uivou. Eu  estava preso na dor.

Depois a coisa triturou seus pés com seus ossos internos e esmagou o crânio que havia me ajudado na manhã anterior. A coisa chamou outras coisas e o corpo da moça foi arrastado para atrás da pedra. Eu, vivo, pensava no tempo da dor. Breve, eu insistia em dizer pra mim mesmo. Mas breve era um futuro que ainda não existia.

O ar está tão bonito. Queria poder te contar como andam meus personagens. Você ia gostar de ouvir falar de nossos mundos bolhas. Dessas bolas bem grandes e com cheiro de sabão em pó. O mundo em formato de água borrada nesse tempo branco de hoje. Tomei duas colheradas de mel pela manhã e lembrei de como me disse que mel nunca adoça quando estamos doentes.

Talvez se eu estivesse doente poderia disfarçar o tamanho da falta que faz as coisas mais bobas do mundo.

Encontrei um pé do teu chinelo atrás do armário. Estava furado bem na ponta. As coisas que guardamos quando gostamos delas.  ”Nunca encontro chinelos que não machucam o pé. Você pode parar de implicar com meu formato perfeito?”

A companhia telefônica às vezes me sacaneia e manda a última mensagem tua umas 10 vezes por hora. Já liguei pra dizer que não quero mensagens mortas e eles sempre pedem desculpas. Devo ter algum inimigo operador de telemarketing. A mesma sensação de ler-te em looping.

Desenhei as bochechas de meu protagonista. Ele ainda mija pra mim. Talvez você fingisse rir quando eu dizia que ele não mostra o pinto, só a bunda. Mas agora vejo o rosto dele, então acho que é um grande avanço em nossa relação.

A tua personagem preferida me olhou pelo reflexo do azulejo na quarta. Tentei dizer que você não estava mais nesse mundo, mas ela continuou a me olhar da forma que só você percebia e eu fiz um rascunho para que ela parasse de me fixar. Não gosto quando eles pedem cores. Você sabe que eu prefiro a tonalidade cinza, pois assim vejo a alma. 

É, eu sei que você diz que alma é um pote transparente de linhas repletas de cores néon, mas você não voltou pra me dizer se estava certo mesmo. Eu acreditaria. Se você voltasse e me recontasse todas as coisas que lembro, eu acreditaria. A morte é mesmo um match point?

Hoje sujei o queixo do antagonista com um preto claro. E ele balançou a cabeça negando mostrar-me o caminho misto. Também aprendi a desenhar meu nome com pincel fino. Adiantou nada um acúmulo de anos estudando caligrafia.

Gostaria de ter dito isso antes, mas não havia silêncio suficiente. Só aquele horizonte seco, culpa do verão sedento que de tanto querer existência virou passado. Estamos no tempo de outono. Sobre árvores, pássaros e fogo. Na época antiga onde costumamos lembrar os antepassados. Lembrei daquele pequeno anão que dividiu nossa vida quando estávamos a balançar na rede da casa que nunca soubemos de quem era. Recordar o vulto dele passando pelo fim de nossas pernas me faz sorrir sozinha às vezes de noite.

Você me disse que eu não deveria colecionar galhos e eu insisto em tê-los até hoje dentro de casa, como se madeira fosse mais do que pedaços marrons de coisas.

Gostaria de te mandar uma carta, mas não compro selos. Às vezes me revolta pagar por coisas que poderíamos dizer frente à frente, por isso decidi escrever com dedo e água pra você, querido você. Sei que não deveria ter te escondido atrás de um quadro na cozinha, mas é que sou egoísta por culpa de minha conjunção Vênus e Mercúrio em Leão. A verdade é que gosto de ouvir os ecos da tua voz. Me lembram jogadores de futebol em concentração. E ter fotografias escondidas é como ouvir vozes por trás de pixels.

Às vezes sujo os dedos de pimenta e coloco as pontas sobre as fotos que ficam atrás. E lembro de você grande, pelos por todo o corpo, as patas fortes como todo animal primitivo costuma ter. Um urso fino vindo das colinas. Às vezes é estranho recordar que as coisas que a gente mais se lembra são as mais selvagens. Polaroids extintas assim como teu coração mamífero. A falta que faz pés posteriores de cinco dedos.

Promoção de MAIO: todo mundo que curtir a página do livro Nephalins, a herança dos anjos no Facebook (www.facebook.com/nephalins) e comentar algo sobre o livro no Skoob (http://www.skoob.com.br/livro/236849) ganha no calor de seu lar um marcador do livro.

=D Gostaria de ser Marcado?

I am Oak. A banda de um homem só – holandês, estranho, talentoso – delicadamente melódico e subversivamente simples. Para aqueles de coração fantástico, o minimalismo =) Indie-folk, pra poucos…