Toque do blues

Publicado: fevereiro 19, 2017 em Contos

“O futuro dedilhou-me. Tocou-me blues.”

O homem de bigode ralo, pele rosada e dobras fartas bravejou ao barco que estava ali há três domingos.

Esse poderia ser um conto das montanhas fragosas, mas não era outono de 1827 e sim o outono dos séculos imperfeitos.

“O futuro dedilhou-me. Tocou-me blues.”

Nabu era seu nome e ele bravejava as palavras do profeta. O homem das dobras fartas conhecera o profeta das águas que levavam ao céu em um dia não-chuvoso. Caminhava entre as pedras quando o profeta o abordou:

“Filho, venha cá. Tenho seu futuro no dorso da mão”.

Aquele que tinha o bigode ralo acariciou seus pelos faciais e aproximou-se.

“Muito bem. Sabia que assim deste o primeiro passo para o futuro próximo?”

A pele rosada avermelhou-se.

“Hum… Muito bem, anos, muitos anos, algumas pedras e um caminho para salvação. Tu andarás pelo ritmo daqueles que percorreram a rota do blues” – e assim o profeta tocou a ponta do dedo mindinho de Nabu. – “Prevejo uma vida de grandes sonhos e acordes”.

As dobras fartas balançaram com uma risada.

“Senhor, não sei nem ao menos assobiar.”

“Com seu novo mindinho saberás de coração como é o encanto nas montanhas e o som de New Orleans” – respondeu o profeta.

“E o que devo em troca?” – perguntou Nabu.

“Palavras, você repetirá essas palavras” – e sussurrou no ouvido do homem.

Nabu não saberia falar outras frases a partir dali. Ele repete “O futuro dedilhou-me. Tocou-me blues” para qualquer pergunta e qualquer resposta. Tornou-se um homem calado, mas com a maior capacidade musical desconhecida de toda a história da batalha das encenações musicais. No rio Yazoo ele se banha toda vez que perde inspiração e fica rouco e para que seu talento retorne dia após dia, ele precisa repetir a frase do profeta pelo menos três vezes ao dia. Como água, as palavras são sobrevivência. A música é apenas uma externalização daquilo que ele quer definir, mas perdeu a capacidade de verbalizar.

Já o profeta? Ele nunca mais foi visto.

 

Expurgo

Publicado: fevereiro 8, 2017 em Contos

Quando definitivamente ela decidiu parar de roer unhas, começou o Purge no Espírito Santo. 2016 estava grudado em suas costas e trazia sempre más notícias. Ela tentou usar sabonete líquido, mas o ano estava decidido a ficar, não passaria a bola da vez. Trouxe caos, fome, agonia e ódio generalizado. Quando aquele ano finalmente decidiu que já estava na hora de ir embora, alguém usou dessa tal tecnologia de ponta e clonou sua maior tensão. Sim, ela voltou a roer unhas.

O clube do livro

Publicado: dezembro 3, 2016 em Contos

Decidiu criar um clube do livro na terça-feira daquele ano que terminava com seis. Um clube do livro de terror, onde as pessoas leriam seus contos preferidos em voz alta, ficariam com o coração acelerado e se tivessem pelos nos joelhos, eles se eriçariam.

Abraçou seu livro preferido quando teve a ideia como se aqueles personagens também fossem amigos seus. Releu suas frases prediletas e decidiu que a reunião aconteceria na livraria que mais cheirava a flor de morto. Anunciou que cada um trouxesse também seu livro favorito.

Esperou horas e teve dor nas juntas, como se a dor viesse em wi-fi. Contou os suspiros que a livreira deu, as vezes que a lâmpada piscou e quando pensou que sua ideia era um fracasso, o primeiro fantasma adentrou.

Era um pouco acanhado e trazia uma cópia amarelada de Lovecraft. Ela se assustou, achou que seu primeiro companheiro seria um ser vivo, mas logo logo acomodou o moço do além e eles ficaram vinte minutos conversando sobre estrutura narrativa e diálogos clichês quando mais um fantasma, agora bambo, entrou.

Veio pelo cheiro das folhas. Disse que do lado de fora da livraria tinha algumas almas penadas que queriam muito conversar sobre uma história de lareira e som. Ela sorriu, já não precisava mais dos vivos.

Depois de Vento e Calor

Publicado: março 26, 2016 em Contos

Tinha cheiro de dezembro quando o Vento dobrou a esquina trazendo o Calor. O Vento era alto, esguio e de um tom grave. Já o calor era baixinho, bem mais minúsculo do que eu imaginava, bochechas avermelhadas, sorriso com os dentes separados e cabelo suado.

Pararam em frente ao meu portão de rosas sem espinhos. Abri na mesma hora porque a vizinhança poderia me ligar dizendo que aqueles dois estavam ali parados e gente ali parada, naquele bairro, não poderia esperar.

– Oi – eu disse abraçando o  maior.

Tinha um efeito meio invisível ao fazer isso, era como se não tivesse acontecido por cerca de três segundos. Logo depois, minha mente foi preenchida com o apertar de mãos do Calor, emanando aquele tipo de energia branda e serena.

– Trouxemos um novo tipo de cabelo para você – me informou o Vento.

– E uns elásticos para penteados – disse o Calor.

Agradeci e perguntei se queriam chá de hibisco. Eles negaram e apenas me mostraram a câmera fotográfica.

– Isso é necessário? – eu perguntei.

– Precisamos registrar – o Calor respondeu enquanto o Vento me passava tal mudança.

Enquanto um deles apertava o botão que tiraria minha primeira fotografia com meu mais novo traço de identidade, senti aquela brisa de corte logo ali na nuca, arrepiando meus pelinhos e me fazendo escutar melhor. O céu estava azul como uma canção entoada pelos The decemberists.

– Sorria – O Vento me disse.

Quando fiz o movimento para mostrar alegria, meu novo cabelo surgiu. Rebelde, volumoso, grosso, registrado em uma fotografia analógica.

Pude ver pela foto que nossa convivência seria próxima. Definitivamente eu precisaria de vários penteados.

Fechei a porta e fui direto para o espelho.

– Olá, meu nome é _________.

Esqueci. O que importava era só aquela sensação de novidade. E foi pelo meu cabelo que a novidade começou.

Logo depois toda minha vida mudou de cor. Não mais enxergava o Vento, mas o Calor, o Calor, esse sim, estava sempre presente. Em escadas, lugares fechados, abertos, transportes… Toda vez que ele chegava, eu agora suava.

 

O cheiro de Flora

Publicado: março 4, 2016 em Contos

Foi numa quinta-feira que teve um céu laranja e rosa.

Eu adentrei o quarto e me deitei bem perto de minha avó. Ela tinha o cabelo cinza e a pele nem parecia tão velha assim, apesar de suas mais de oito décadas de existência.

Fiquei a pensar se a gente perde o cheiro quando vai morrendo.

– Então você nunca cheirou um pré-morto? – alguém me perguntaria.

– Não. Primeira vez.

Acho que o cheiro vai ficando fraco, fraco, até desaparecer a essência da pessoa. Aí a gente vai cheirando menos porque não há mais nada a cheirar. E o pré-morto vai ficando triste porque nem ele mesmo sente o aroma mais. Ele só tem lembranças do que não pode mais fazer. E o que ele não pode mais fazer tem cheiro e ele não.

Minha avó sentou na cama e disse naquele dia:

– Eu tenho uma tristeza profunda bem dentro. Vou pro céu da boca de alguém.

Eu ri. Ri porque eu ainda tinha cheiro. Eu ri.

Estrofe

Publicado: dezembro 8, 2015 em Das coisas que se aprende

Aponte-me o refrão. O que eles querem, longe estou do tom. O que de mim sou, vento-te. O que tento compor não é mais. A letra que some quando nada pode ser dito. Minha despalavra do dia.

Desmodus Draculae

Publicado: novembro 2, 2015 em Contos

Ele ficou barrado na porta por uma eternidade e meia. Era um vampiro educado. Acreditou no “aguarde sua vez”. Só percebeu que não ia ser atendido quando tombaram o prédio.

Baby, now

Publicado: agosto 17, 2015 em Contos

Era pequeno como riacho perante mar, grão perante infinitude, dor em meio ao caos. Conseguia desviar de feridas, mas toda vez que ouvia uma canção em canal de Internet, seu corpo todo paralisava e ele ficava ali, horas entre som e ruído,  querendo se ver livre da sensação, mas inerte.

Stay with me, todas as músicas diziam.

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#love

Publicado: agosto 14, 2015 em Contos

cpnyo

Achou que teria amor quando crescesse. Procurou nas flores, filmes e em sapatos desgastados. Cruzou com canções que mandavam pull e push o coração. Hoje é garçonete em um pub e sorri para todas as pessoas que atende porque acredita na máxima do “próximo”. Todas a acham simpática, mas ela só está ali pela porção de Onion Rings do fim do expediente.

Down in Mexico

Publicado: agosto 13, 2015 em Contos
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Tinha aquela coisa de balançar o corpo só em trilha sonora de Quentin Tarantino.

Quadril, pernas, mindinho. Era a única garota que conheci que conseguia balançar o dedo pequeno.

Procurei-a em bares e cigarros, mas Jonas sempre me dizia: Cara, ela era fantástica.

Cruzei mares gritando Sereia, com esperanças de achá-la em conchas raras.

Nem o hálito me recordo mais, só sei que…

quando escuto a trilha sonora de Death Proof eu balanço meu quadril, mas meu mindinho não se move por saudade.

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