Dias glorificados há muito tempo atrás

Publicado: agosto 5, 2017 em Contos

Ele nunca retornou do “Vou ali comprar um cigarro”. Eu ainda segurava seu travesseiro ao avesso quando vi luzes do lado de fora. Azuis e vermelhas. Ele, a vítima da trouxa que escondia debaixo da cama, não havia retornado desde a noite anterior.

“As pessoas têm o poder! As pessoas têm o poder!” – eu ouvia do lado de fora. Caminhei até o espelho do banheiro e observei as rugas que aquilo tinha colocado em minha face. Levantei meu rosto que quase não tinha queixo e sorri. Tinha essa mania de checar se meus dentes estavam alinhados, queria sim demonstrar uma felicidade que poderia ser traduzida em qualquer lugar que fosse. Toquei a pequena pinta que tinha na bochecha.

Se eu engolisse tudo que estava na trouxa morreria ali?  Como seria ser um cadáver sem queixo? Em que momento minha pinta se desintegraria?

Meu pai sempre soube que eu era uma moça boba e vivia me dizendo: “Venha comigo, você é muito boba. Não pode ficar sozinha por mais de uma hora.” Mas ele não estava ali para me orientar nem ao menos para dobrar as roupas de cama. Não tinha ninguém para esconder a trouxa. Aquele pequeno pacote que nunca imaginei segurar, nem quando ele me pediu para tocar Constantine’s Dream. Aquela maldita música era um presságio e eu não sabia. Voltei ao silêncio do meu quarto. A letra da música adentrava meus ouvidos como se sussurrasse meu presente. Um medo agarrou minhas entranhas. Abaixei o corpo, tateei o chão e toquei na trouxa.

As luzes ficaram mais fortes, se aproximavam como vento que percorre batente da porta. Senti o calor do objeto. Apertei aquilo que ele disse que estava destinado a proteger. Que irônico dar uma saidinha quando a vida de todo mundo está mudando. Batucadas na porta, sons e uma explosão de cores. As vozes se distanciavam. A trouxa brilhou. Eu, que no meio estava, de branca passei para furta-cor.

Então tudo ficou prateado como no futuro distante. A trouxa flutuou de minha mão e quando pensei “eu é que deveria ter ido comprar cigarros”, fui abduzida. Varrida da existência terrena como se fosse Lúcifer. Um sopro que se foi, uma saliva engolida, um esquecimento da natureza, a roda dos escolhidos.

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