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Estrofe

Publicado: dezembro 8, 2015 em Das coisas que se aprende

Aponte-me o refrão. O que eles querem, longe estou do tom. O que de mim sou, vento-te. O que tento compor não é mais. A letra que some quando nada pode ser dito. Minha despalavra do dia.

Eu estou desempregada e com isso pego bicos que não me agradam, com contextos que discordo para pagar aluguel e comprar comida. As pessoas muitas vezes não entendem quando digo que não posso ir no lugar tal porque não tenho dinheiro e vivo em crise existencial porque na verdade não sei para onde ir. Fico repetindo a frase em looping “será que tudo isso vale a pena?”

Há um tempo atrás eu tinha palavras dentro de mim. Elas pulsavam e saíam de meus poros e eu conseguia espalhá-las não porque eu queria ganhar dinheiro com elas, mas porque achava que elas poderiam acalentar a existência de alguém, em algum lugar, que também estivesse nesse caminho bambo de vida. Eu não me preocupava com o fato de que tinha que vender palavras nem a porcentagem de lucros que elas poderiam me acarretar. Eu apenas criava.

Hoje, as palavras querem dizer quantidade de dinheiro que pode chegar até minha pessoa. E isso me corrói por dentro. Me dá tiros na alma nesse mundo de consumo. Vender WXY de livros. Produzir HIZ de conteúdos. Porcentagens e cálculos, rentabilidade em um país de crise. O número de curtidas que se leva em um post simples e que alguém me diz que tem que se transformar em venda.

Eu não produzo de coração limpo há muito tempo. E quando alguém aparece do nada, me mostrando como eu era, às vezes tenho vontade de agarrar meu eu do passado e dizer Não vá embora, fique um pouco mais. Ninguém sabe fazer o que você me faz. Quando te sopram por dentro, você realmente sente.

Hoje houve uma sacudida na vida. Parei para pensar e ter coragem de dizer e aceitar que as palavras produzidas por mim são pequenos elos que tocam uns e talvez outros, ou ninguém ou apenas uma pessoa. Mas quando elas são lidas, é como se eu quisesse dar um abraço e dizer Também estou aqui, com você, por você. Vamos apreciar a vista por um momento. Talvez isso seja o verdadeiro sentido de escrever. Você se conecta e ponto. Nesse mundo louco de produção de conteúdo rápido acabamos esquecendo o que Roy Rudnick disse uma vez, “o dia de amanhã ninguém usou, pode ser seu.”

E o espaço do “seu” deve ser preservado com cuidado. Frágil como ele, intenso e fulgaz, muitas vezes quer nos abandonar, por medo de não ser compatível com o mercado. Mas o que é o mercado a não ser números e probabilidades?

Se o que você fez foi abraçado por alguém em algum canto do mundo, mission completed. Antigamente escritores tinham um público de cem pessoas, agora é necessário milhões para que suas palavras sejam eficazes?

Um abraço para você, “omeunomeenuvem”, que me trouxe a alegria de recuperar essa sensação de troca, de amor e de valor às coisas simples. Inspirar e expirar. Uma coisa e outra.

omeunomeenuvem

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Publicado: janeiro 22, 2015 em Das coisas que se aprende
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Ninguém me deu uma chave mágica e me disse “Pronto, você está adulta.” Já me sussurraram “Você não pode estar mais nessa fase”, “você não tem idade pra isso” e coisas do tipo “na minha época”. Mas ninguém nunca me disse “Sua tentativa de adulteza me comove, toma uma de verdade”.

Estou esperando até hoje o tédio passar, a angústia do futuro ir embora e as respostas pra onde devo ir (quando a vida confunde a gente num fio emaranhado que mais parece crescer do que chegar ao fim). Estou aguardando meu catálogo de adulto.

Sei lá, talvez um símbolo que signifique “você cresceu, ganha agora o bônus da certeza de que poderá ter certeza.” Ou um livreto com o mapa de que “suas emoções serão controladas com esse bando de experiências que passou.” Tô querendo meu diploma de amadurecimento como quem faz pedido para estrela cadente no céu. Porque eu tinha muito mais clareza quando eu era ontem.

Hoje é apenas um marco temporal de que sol aparece e sol se vai e somos neblinas flutuando pelo ar como quem entra em estado de estação. Três meses duram a marcação contínua, mas os dias oscilam em temperaturas.

Tô aguardando o sono pacífico do adulto, a sabedoria de quem consegue acordar cedo e dizer que me acostumei, a tal “agora tenho responsabilidade na Vida.” Sempre achei que essa tal Vida fosse esmurrar minha porta com suas impressões, frequência afetiva e palavras cândidas que me trariam ao peito a coragem de ser adulto. Mas o que acontece são só palavras minhas, literatura de boca.

Às vezes deixo a porta aberta pra que o dono dessa Vida de adulto passe em meu lar e entregue um Sedex que talvez não seja meu ou que talvez seja do meu eu de depois de amanhã (que eu não tenho a menor ideia se sabe o caminho de casa).

Estou esperando meu crachá de adulto e um punhado de linhas quietas, desenhadas em papel machê. Envios tardios, mensagens de paradeiro. Aguardo um”skip” nesse tempo em loading.

Por Alexander Jansson

Por Alexander Jansson

Daí vc tá na escada pra descer do ônibus de madrugada e a porta se espatifa na sua frente. O camelô grita “Seu motorista burro, quase machucou a moça” e você pensa “Uau, o vidro é azul”. E o motorista abre e fecha a porta de novo e você tem que gritar: “A porta quebrou, mas eu preciso descer.” E percebe, ao passar pelos estilhaços, que vc poderia ter sido cortada pelo vidro se tivesse dado um passo à frente em menos de um milésimo de segundo. E acontece aquela sensação estranha de achar que está vivendo dentro de uma franquia do filme Final Destination, “ai meu Deus, foi por pouco”.

Moral da história: toma um tapa na cara pra parar de reclamar de sorte.

trago uma msg weese

never more

Oh life

Publicado: julho 16, 2013 em Das coisas que se aprende

Despertador. Celular. Sono. Prova. Ônibus. Barca. Sono. Comida. Sono. Filme. Prova. Sono. Incenso. Colchão. Sonho. Sono. Bicicleta. Viela. Hora. Ônibus. Sono. Comportamento. Snickers. Consumidor. Xilincar. %.  Mato. Mentalmente. Colega. De. Classe. Um. Dois. Três. Explode. Sono. Sms. Whatsapp. GoogleMaps. Bananada. Teleférico. Morros. Adeus. Sobe. Desce. 1 real. Ônibus. Vai. Vem. Sono. Sim. Não. Email. Sono. Van. 2,80. Sono.

Vida, essa bomba de gás lacrimogêneo.

“Nada, nada acontece no mundo sem a permissão de Deus,” me disse o menino sentado ao meu lado no avião. E foi ali, em meia hora de voo, pela boca de uma pessoa que nunca mais verei na vida, que descobri como é forte o que chamam de amor. Espalhado nas histórias da vida de cada um de nós e que falamos para o outro para doar exemplo de conforto e sabedoria.

Meia hora sobre a vida, o universo e tudo mais. Meia hora pra eu entender porque dizem que temos que ter gratidão pelas coisas que são do jeito que são, já que a vida é. Um fio emaranhado de encontros e desencontros, perdão e medo, vida e morte e no meio de tudo isso, a lei do retorno. E que, independente de qualquer crença, estamos protegidos. Se assim quisermos. E se assim permitirmos. E que só entendemos quando realmente precisamos. Talvez sejam os acasos só acasos. Talvez sejam respostas pra perguntas que nem sabemos que temos. Mas seria mesmo a vida um movimento aleatório?

“O que você faria se soubesse que o avião cairia em 5 minutos?”

“Acho que ouviria uma música e você?”

“Faria uma oração.”

Essa é minha oração de gratidão ao menino do pai em câncer terminal que nunca mais verei na vida. Que me deixou a pensar durante o trajeto de volta pra casa em como encaramos nossa jornada. Como nos desviamos, nos distraímos, nos esquecemos de que palavras espalhadas com amor sempre chegam a nós não porque merecemos, mas porque elas sempre retornam mais cheias. E sempre são melhor ouvidas quando ditas por estranhos. Que o menino possa se despedir da forma que melhor for. Que seja breve seu desencontro.

Tudo vai e volta em triplo. Vai ficar gravado aqui, no limbo da Internet, pra que eu sempre me lembre da lei do retorno. Pra sempre acreditar. Sempre.

Publicado: março 6, 2013 em Das coisas que se aprende
Banksy

Banksy

Que tipo de artista você é? (Ou a necessidade que as pessoas têm de definições – ou quem sabe estou matando toda a minha articidade*)

Certa vez um amigo me disse que eu tinha que me afirmar mais como artista, que deveria chegar nos lugares e dizer: “Oi, meu nome é zebra e eu escrevo em preto e branco”. Outro me mandou email dia desses com dicas de como trabalhar em meu marketing pessoal. Outro que se eu voltasse pro Facebook venderia mais livros (até hoje nenhum). Outro que eu deveria ler todos os manuais de sucesso “Como ser um bom escritor”… ali estava a chave pro caminho do reconhecimento. Outro que eu deveria dar para todos os outros escritores. Essa coisa de networking era muito importante (arrã, sei). O que eu mais encontrei foi um bando de gente com fórmulas. Mas nenhum, nenhum me disse como era essa tal coisa de ser artista.

Demorei tempos para me apresentar “Oi, sim, meu nome é Esquilo e eu sou autora desse livro”. 1 eu ainda acho que autores são meros coadjuvantes de suas estórias e 2 já quis ser tanta coisa nessa vida que essa auto definição me gera um tipo de enclausuramento. Como se eu não pudesse ser nada além do que aquilo. (Eu já quis ser dançarina aos 9 anos, atriz aos 12, cineasta aos 18 e escrever aos 26. Aos 40 terei uma banda de rock? Como poderia ser apenas uma coisa?)

A verdade é que passei por todas essas posições e percebo que gosto de tudo. Poderia fotografar pela manhã, desafinar meu violão pela tarde e cantar pela noite. Nada disso mudaria minha posição de observadora no mundo.

Eu vim aqui dizer publicamente que não sou escritora. Me tirem esse peso dos ombros. Sim, eu escrevi uns livros por aí porque gosto de contar estória e porque adoro diálogos. Sim, eu vejo personagens, mas isso me parece mais alucinação do que talento. Tenho intimidade com palavras porque sou introspectiva. Talvez se no auge da minha adolescência eu tivesse acesso a instrumentos musicais do que a livros eu teria uma harpa hoje em dia.

Quando alguém diz “Olha, ela é escritora” tenho vontade de sair correndo que nem cachorro doido. (“Arrã, agora que você sabe, posso ir embora?”)

Já cansei de ouvir que preciso me definir. Mas qual seria o propósito disso tudo?

Me defino e parece que estou sendo enforcada com rótulo de produto. Passo a responder “E aí, tá vendendo muito?” com uma mentira branca, começo a me preocupar com minha imagem pessoal e todo lugar que vou ao invés de experimentar só estar, levo um livro e digo “Oi, eu tenho um livro, me compra?” Qual a graça disso, pelo amor de Deus?

Não sou diferente de você. Qualquer um pode fazer arte. É terapêutico, faz bem pros olhos e está ao alcance de todos. Está no lugar comum. Ninguém precisa ter super poder, nem receita mágica nem sair por aí cuspindo que faz X Y ou W. Todo mundo tem direito de criar.

Somos um estado de coisas. Eu faço algumas que podem sensibilizar alguns, enjoar outros. Mas são só coisas. Coisas que observo, coleto e passo adiante. Você pode fazer isso também. Qualquer um pode fazer. Talvez se as pessoas soubessem que podem fazer qualquer coisa, o mundo seria menos violento.

Você pode pintar um muro, grafitar que ama MARIA ELIZABETE, colar papéis pelos orelhões e chamar de arte urbana. Você pode fazer isso. Tira esse peso de especial dos meus ombros. Eu nem mesmo sou popular, não me venha colocar num lugar onde não estou.

Sim, isso é um desabafo. (Quando alguém me mandar de novo trezentos e-mails eu colo o link pra esse post e ficamos por isso mesmo)

Certa vez li uma entrevista de Clarice Lispector que define exatamente como me sinto:

“Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo, consigo mesmo de escrever. Ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu faço questão de não ser uma profissional… para manter minha liberdade.”

– Em que medida o trabalho de Clarice Lispector (…) pode alterar a ordem das coisas?
Não altera em nada… Não altera em nada… Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera nada.

– Então por que continuar escrevendo, Clarice?
E eu sei? Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro, não é?

– No seu entender, qual é o papel do escritor brasileiro hoje em dia?
De falar o menos possível.

– Normalmente, que tipo de problema Clarice Lispector escritora traz a você?
Às vezes o fato de me considerar escritora me isola…

– Por qual razão?
Me põe um rótulo.

– E você acredita que as pessoas olham para você através desse rótulo?
Às vezes através desse rótulo. Tudo o que eu digo, a maior bobagem, então é considerada como uma coisa linda ou uma coisa boba, tudo na base de ser escritora. É por isso que não ligo muito para essa coisa de ser escritora e dar entrevistas e tudo. É porque eu não sou isso…

(…)

– Mas você não renasce e se renova a cada trabalho novo?
Bom, agora eu morri… Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta… Estou falando do meu túmulo.

Me interessa muito mais o ato da criação do que saber onde o mercado está. Me interessa mais conversar sobre o processo da criação e todas as coisas que nosso cérebro pode produzir do que saber que não ganhei dinheiro com isso. Sou movida a experimentações. Ao incerto. Ao acaso. Aquilo que não está em fórmulas.

Se as experimentações dão certo ou errado, não me importa. Sabe aquele segundo onde você pensa “Uau, é aqui que estou e é legal estar?” É só isso que me apetece.

Sou egoísta. Escrevo pra me satisfazer. Tiro foto de céu porque gosto de tonalidades. Quero estar onde tem música porque me agrada som e silêncio. Roubo diálogo de pessoas nas ruas. Vejo a vida com olho de cinema. Copio e colo que nem Banksy. Não sou artista. Eu fujo de responsabilidades.

*articidade: estado de estar imerso em arte dentro de uma cidade.(acabei de inventar a palavra e definição)

Desfiar

Publicado: dezembro 3, 2012 em Das coisas que se aprende

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“Ainda não sei o que quero. Mas vejo céus e sombras. Me faltam palavras, me sobram imagens.” O lugar tende a esperar.