Arquivo da categoria ‘Resenhas’

Esqueçam Raphael Montes. O nome que se destaca na literatura brasileira de suspense – atualmente – vem de uma moça que mora em Maricá (Rio de Janeiro) e que tem em suas mãos o dom nato de nos deixar com aquela sensação mista de estranhamento e maravilhosa curiosidade a cada página que viramos. O nome dessa relíquia? Glau Kemp e seu “Quando o mal tem um nome”.

Sinceramente, quando li a mensagem da autora no Skoob divulgando seu livro, o título não me chamou atenção. Pensei: “mais um livro clichê”, “mais um ebook” sem graça. Porém, a simpatia da autora e sua pré-disposição em trocar resenhas me fez comprar o livro na Amazon. Foi a maior surpresa de 2017. Comecei a ler o livro no começo de dezembro, na mesma semana que ele ultrapassou Stephen King, se tornando o número 1 de mais vendidos da Amazon.

Minha grande birra com livro de literatura de terror nacional é essa mania de copiar autores estrangeiros, mas o grande destaque de Glau Kemp é sua voracidade em reinventar o que já conhecemos. Não temos aqui uma trama original, em termos de nunca antes escrita, mas sim uma maestria em reconstruir uma história já conhecida – o filho do mal – com toques de agonia, técnicas de suspense e verossimilhança. Aqui a presença do real e o fantástico é aterrorizante porque não sabemos até que ponto o que os personagens vivenciam é fruto de uma obsessão real ou do mal incarnado em nível máximo. A grande conquista da narrativa é nos deixar nessa corda bamba “isso é coisa da cabeça do personagem” ou “ai meu Deus, não, isso é coisa do mal puro!” A própria autora diz, “como as coisas ruins gostam de surpreender, elas ocorrem em lacunas de normalidade.”

Me senti na atmosfera sufocante de “Carrie, a estranha” com uma mistura de terror psicológico que presenciei em “A menina que não sabia ler”. Kemp é uma autora que investe pesado nos personagens, nos presenteando com camadas profundas dessas mentes complexas. Lembranças que nos remetem também ao conto de King “1922” (agora série da Netflix).

Foi uma leitura frenética, terminada em dois dias. Apesar de possuir um final previsível, – pelo menos para quem é fã de terror – o livro vai muito além de seu final. É aquele tipo de história que você pode até conhecer e saber como vai acabar, mas dependendo daquele que conta – grande mérito de Glau Kemp – você se arrepia e se confronta com emoções ambíguas como se nunca tivesse visto ou sentido antes.

Ao terminar “Quando o mal tem um nome” fiquei com aquela sensação de ter alguém nos observando, de ter entrado e saído de um local mal assombrado e ficar com aquilo pendurado no ombro, com vontade de correr até passar. E ao correr, rola também uma alegria indescritível por ter cruzado com uma escritora contemporânea que preze pela literatura de horror. Porque convenhamos, quantas escritoras de terror você conhece no cenário brasileiro?

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SOBRE A OBRA:

Sinopse: “Sinto medo. O tipo de medo que persegue até a presença de outras pessoas. Segue até a luz e entra nas cobertas. Não está debaixo da cama ou dentro armário. Está em minha pele e tem um nome. Não pergunte. Não descubra. Nunca saiba o nome do seu medo, ou irá chamá-lo… Seus lábios podem estar selados, mas sua mente repetirá: Donavan… Donavan… Donavan.”

Na Aparecida dos anos 70, uma cidade erguida no centro de um milagre, conhecemos a história de Marta e sua filha Clara. De sua terra cultivada por fé a malignidade cresce no coração de uma mãe devota. As orações que a padroeira não atende são feitas agora para eles: anjos caídos. Ela não deveria saber o nome do demônio que atendeu sua prece, e a abominação despertada é tão grande que todos vão pagar pelo seu pecado. O mal só precisava que alguém o chamasse pelo nome e agora está entre nós.

“Faça uma oração antes de dormir e deixe a luz acesa. Se vir a fé em seus olhos, talvez vá embora. Mas ele virá”

— Por que um demônio iria querer vir até à casa de Deus, minha jovem?
— Por que o senhor iria até a casa do demônio, padre?
— Para levar a luz até ele.
— O demônio também tem seus planos.

Para comprar: Amazon

 

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BGUm cineclube ativo há 8 anos em uma cidade periférica no Rio de Janeiro bateu às portas de uma plataforma de financiamento coletivo não com o objetivo de tirar o projeto do papel, mas para expandir a colaboração de artistas e a troca de parcerias ao pagar um cachê simbólico, ato quase impossível de se realizar em locais sem apoio financeiro.

O Cineclube Buraco do Getúlio não é apenas um local para exibição de filmes. Ele agrega valores de troca, com intervenções poéticas, musicais, afeto, performances e ressignificação de territórios populares. É um espaço de articulação de várias redes, não apenas o tão comumente “discutir filmes”. Na campanha do Catarse realizada em 2014, essa rede ganhou força e foi possível realizar 6 sessões mostrando que na Baixada Fluminense há vozes artísticas que colam por amor e que o trabalho de cada um que passou pelo cineclube é a prova da renovação e oxigenação da cena cultural independente do Rio de Janeiro. Ter a liberdade de dar um apoio financeiro a esses agentes agregadores é um passo importante para se pensar formas alternativas de se construir um outro imaginário sobre os territórios.

Buraco Negro eventoCom uma média de 100 pessoas por sessão, o cineclube de Nova Iguaçu conseguiu nessas seis sessões obter aquisição de equipamentos novos (o cachê da equipe foi revertido à compra de um novo projetor, pois o antigo queimou no meio do caminho), locação de equipamentos de som e luz, divulgação das sessões, despesas de produção e efetuar uma ajuda de custo às bandas que se apresentaram e aos artistas que realizaram intervenções.

Referência de atividade de difusão cultural em Nova Iguaçu, é o cineclube com maior número de frequentadores do Rio de Janeiro. Localizado em um bar, movimentou artistas para campanha no Catarse, pessoas de outros estados que nunca tinham ouvido falar no cineclube, gente anônima e aqueles que acreditavam na essência do “faça você mesmo”. 253 apoios. R$ 15.402. 10 pessoas se organizando de maneira coletiva para realizar a manutenção de conteúdo online, criação de arte, trabalho de curadoria e produção, montagem, operação dos equipamentos de som e projeção e um público cativo e sedento por arte.

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Sim, é possível um outro imaginário:

Julho de 2014: Sessão Catártica
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Agosto de 2014

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Sessão Visões Periféricas

Setembro de 2014

Sessão de Guerrilha

Outubro de 2014

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Novembro de 2014

Sessão Buraco Negro

Sessão Buraco Negro

Dezembro de 2014

Made in Baixada

Made in Baixada

O que um cineclube e uma plataforma de financiamento coletivo podem fazer juntos? Parafraseando o vídeo de 6 anos do Buraco do Getúlio:

“produzir a vida, produzir histórias juntos.”

2 – Conte um pouco mais por que escolheu essa pauta.

Minha relação de afeto para com o cineclube já tinha me deixado com vontade de escrever sobre a experiência no Catarse… quando vi que o exercício envolvia algum projeto, meus dedos deslizaram de forma rápida e o texto brotou facilmente.

3 – Faça um plano de divulgação do post.

Como é um projeto ligado ao audiovisual, eu procuraria blogs/sites para uma parceria de divulgação, além de comunidades e pessoas relacionadas aos temas de cineclubismo, cinema, audiovisual, periferia, cultura. Faria um teaser de uns 10 segundos para ajudar na dinâmica da divulgação também.

Há muito muito tempo atrás eu tinha vontade de rabiscar os livros que lia. Conforme os anos passaram e os tipos de leitura aumentaram, essa vontade passou. Em A Menina Submersa, o meu livro está pintado. Duas palavras definem minha leitura submersa realizada em dois dias: curiosidade e encantamento poético. A cada página que passava, uma apreensão latente brotava e eu não conseguia parar de ler. É um livro agoniante, como se você estivesse preso em um looping de pensamentos de alguém. Isso te prende, mas também te cansa. Não que isso seja ruim, na verdade, foi o que me fez continuar.

Há tempos que não leio um livro que me instiga a roubar suas frases, há tempos que não tenho a sensação “queria ter escrito isso”. Você já teve a sensação de querer ter um frase para chamar de sua? Eu fiz uma listinha de minhas frases favoritas no fim desse post.

A Menina Submersa tem uma construção narrativa que emaranhada à percepção confusa de sua protagonista nos remete ao que considero “livro repleto de palavras bonitas.” Não é apenas uma alegoria, mas um encantamento, que nem nos contos de fada mencionados na narração. Encanta porque nos apresenta a um enredo absurdamente elaborado, onde cada palavra tem um peso especial à estória. E isso te deixa confuso.

India Morgan Phelps (a narradora e personagem principal) possui esquizofrenia desorganizada e junto a isso somos bombardeados por uma narrativa não linear, pensamentos que prezam pela sonoridade, um mar de referências a quadros, livros, músicas, lesbianismo, transexualidade. É também uma estória sobre corvos, fantasmas, mentiras, memórias. Em algumas partes me lembrava a atmosfera de Big Fish, do Tim Burton. O que é real? O que é imaginário? O que importa é que seja verdadeiro.

A Menina Submersa tem uma verdade única. Eu olhei pro livro pela frase de Neil Gaiman “Poucos escrevem como Caitlín.” Sim, ela escreve como pensa. Parafraseando o livro “é mais fácil lembrar-se da pele de alguém que a tonalidade de sua alma”. O que encontramos em A Menina Submersa são essas camadas de pele, traduzidas por palavras que tentam alcançar a inquietação e o obscuro de nossas mentes. Essas palavras querem ser lembradas, por mais que tendemos a esquecê-las.

A sinopse do livro diz que “é uma história de fantasmas habitada por sereias e licantropos. Mas antes de tudo uma grande história de amor construída como um quebra-cabeça pós-moderno, uma viagem através do labirinto de uma crescente doença mental.” Sinopses nunca definem o que sentimos quando lemos um livro, nem nos explicam por que alguns livros nos cativam e outros não. O que posso dizer sobre A Menina Submersa é que ele parece ser uma tentativa de se aproximar do que é frágil, do que nos quebra, do que nos define como seres únicos.

O romance é considerado uma “obra-prima do terror” da nova geração por causa de seus elementos de realismo mágico e foi indicado a mais de cinco prêmios de literatura fantástica, além de ser o vencedor do Bram Stoker Awards 2013.

Dentro do universo de A Menina Submersa há simplicidade e coisas triviais. Dentro desse universo há memórias. E memórias não possuem presente, passado ou futuro. Elas são o que são. Iscas jogadas em um mar. O tipo de peixe que as morde ou o tamanho que você levará para casa vai depender de sua paciência. Não é um livro leve, mas toda essa confusão tem uma ponta grande de boniteza. É essa a assinatura da autora.

 TOP 7 FRASES FAVORITAS DE A MENINA SUBMERSA:

  1. “Não há razão para ficar fora de casa à noite, sob o céu noturno, se eu não puder ver as estrelas.”
  2. “Eu sei agora como resumir o cheiro do apartamento. É cheiro de tempo.”
  3. “um céu amplo e carnívoro”
  4. “Tão longe da noite das primeiras eras. Nós estamos acostumados a olhar para a forma presa de um monstro, mas ali… ali você poderia olhar para uma coisa monstruosa e livre.”
  5. “Aquele sorriso está marcado para sempre na parte de dentro de minhas pálpebras.”
  6. “Os fatos têm todo o tempo que o universo permite.”
  7. “O amor está observando alguém morrer.”

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O porquê de Scott Pilgrim contra o Mundo ser divertido:

1. As batalhas de banda são as melhores;

2. Scott ganhando o “power of love” e o “power of self respect”  em formato de arma é muito muito nerd(!!!!);

3. O mau humor da baterista e suas frases monossilábicas é espetacular;

4. As cores do cabelo de Ramona (cheia de referência à Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças);

5. O amigo gay como o colega de quarto de Pilgrim (quem não conhece alguém como ele?);

6. Tem música indie e personagens indie!

7.  Todos os nocautes são perfeitos;

8.  As onomatopeias de HQ;

9. A versão 8-bit digna de um clássico do GameBoy;

10.  Todo o universo POP!!

Ou seja, tô indo agora comprar uns jogos porque minha vontade de jogar vídeo game voltou! = “They totally rock”.

Me disseram que o mundo é matemática pura e todas as previsões que se tem não são nada mais do que probabilidades bem sucedidas captadas pelo cérebro, depois de vários fracassos não contabilizados. Se isso é fato, o que são os filmes de Wes Anderson?

Eu queria que as probabilidades me fizessem sentar a seu lado em um voo ou uma viagem de trem ou uns minutos em um ponto de ônibus. Eu não queria entendê-lo, queria dividir estórias. Todas as excentricidades e idiossincrasias que a vida nos presenteia e mesmo assim as pessoas insistem em apostar na lógica e nos bons costumes. Queria que ele me apresentasse a mais pessoas estranhas como suas personas fílmicas.

Wes Anderson é um diretor americano que infere em seus personagens temperamentos peculiares e é isso que o faz um diretor tão extraordinário quanto seus personagens. Suas narrativas envolvem humor seco, ironia e visões exóticas sobre fatos comuns. Mas em todos os filmes o que se encontra é um traço de simplicidade e sofisticação que poucos diretores conseguem captar sobre a vida, estranha vida. Às vezes ele me lembra Nelson Rodrigues, em outras, Artaud.

Em todos seus filmes me pego rindo de situações esquisitas que me remetem a fatos esquisitos que também aconteceram em minha vida e me pego com os olhos marejados, pois é o único diretor que no fim sempre me faz inspirar e expirar sobre essa lógica que algumas pessoas insistem em termos comportamentos sociais apropriados.

Para Wes Anderson, são os personagens “exóticos e selvagens” os mais verdadeiros. O curioso é que , todos eles têm problemas familiares. E todos eles nos mostram que atos simples deslocam e movem as pessoas, não esferas sociais.

Vejo uma insígnia em suas produções: a vida é singela, estranha e triste, mas é sempre uma volta pela vida.

Minhas indicações para um dia de chuva:

Repo Men

Publicado: dezembro 27, 2010 em Resenhas
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Até que ponto amizade supera o egoísmo humano? Até onde você iria para “proteger” os amigos que você ama? É sobre proteção que Repo Men se sustenta.

Filme de ação mediano, tinha tudo para ser mais um clássico sessão da tarde que quer ser uma mistura de Missão Impossível com “filosofia” Matrix de que a tecnologia vai nos matar e inverter o papel potência de sobrevivência em (como sempre) abuso de poder comercial.

Todavia os dois minutos finais são surpreendentes, o que faz questionar toda a narrativa. O anti-heroísmo, as cenas de luta memoráveis com direito a serrote que chega mãos do protagonista no tempo exato de necessidade, todos os furos de narrativa são esquecidos quando você pisca os olhos e junta peças nos minutos finais: Então é por isso!

Poderia ser um Tarantino pelo sangue gratuito e as mortes tragicômicas, mas não é. É um filme sobre a distorção da palavra proteção entre amigos, com uma mistura de tecnologia como arma de poder. Interessante em partes.

Parênteses para o papel que uma máquina de escrever exerce sobre a trama. Nunca uma máquina de escrever teve tanta importância em uma narrativa (mais uma vez, surpreendente!). E é a primeira vez que um personagem em toda cinematografia mundial, na hora da fuga, corre com uma máquina de escrever no colo.

Repo Men sustenta os clichês da narrativa clássica americana até 1 hora e 51 minutos quando tudo se inverte e um elemento precioso se insere, mostrando que fomos enganados até aquele momento. Vale pela surpresa e pela excelente trilha sonora, mas peca por ver uma Alice Braga pouco aproveitada e a ideia absurda e preconceituosa de que os “vilões” pertencem ao lado Negro da Força. Não sei até que ponto vale a pena ver, mas a trilha sonora é divertida, indo de Nina Simone, Beck, Moloko, o clássico Dream a little dream of me (The Mamas and The Papas) até Unkle e William Bell.

E como um dos personagens diz: “It’s small, I know. But it matters”. (É pouco, eu sei, mas vale a pena).

À Deriva

Publicado: dezembro 26, 2010 em Resenhas
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Muitos dizem que a primeira cena é a que traduz o filme todo. À Deriva é um exemplo. O flutuar na água é o que todos nós queremos. Independente da idade, do sexo, do tempo. É o que o filme respira: o ser humano sempre necessita de leveza.

Relacionamentos. Agressões verbais, o olhar assustado do ser humano insatisfeito. O encantamento. As relações amorosas e a superficialidade humana. O filme de Heitor Dhalia fala sobre como os anos endurecem as relações? Sobre como atrás dos anos se escondem as simplicidades e que são só elas o que se tem em comum? Talvez sim, talvez não.

Passado aos arredores de uma casa de praia, À Deriva é um filme de memórias. Memórias de músicas, memórias fotográficas, memórias de gostos. Memórias das perdas, traições. O julgar.

Fala sobre as coisas que se quebram e que é impossível recuperar. Fala sobre o verão que afunda entre as outras estações. É um filme simples, triste, com uma bela fotografia nostálgica que aborda a forma como nosso caráter e comportamento é moldado através de processos internos violentos. No caso da personagem, Filipa, a violência de crescer e perder a inocência em meio a crise de relacionamento dos pais.

À Deriva chega a ser plástico, sensorial, onde a sensualidade é explorada a cada take feito como um objeto à parte, cheio de significância, com destaque para as cenas externas. Sem nenhuma surpresa no roteiro, o filme se realça pelo estado de encantamento, característica que parece ser uma tendência fílmica contemporânea quando se fala em processos de amadurecimento.

Nessa narrativa, boiar é deixar o corpo à deriva. É agarrar-se aos últimos (e poucos) pedaços encantados de memórias e gestos que não nos deixam ir. Para crescer e ir embora é preciso se desencantar. Mais um filme sobre despedidas e como lidar com isso. Nostalgia em fim de ano não é uma boa pedida para pessoas deprimidas.

Curiosidade: esse filme foi ovacionado em Cannes por mais de 5 minutos.

“Tu não é igual a essa cidade”. “Ele encontrou uma saída”. “Por que tu voltou?”

Esmir Filho é um homem de detalhes. Aquele que retrata solidão e angústia pelas minuciosidades. O interior pela imagem. O toque e o cabelo como partes fundamentais na cinematografia. O não toque também. É pelo vazio que se entende o preenchimento. É pelo não acontecer que a ação torna-se cheia, completa, significativa.

E são os fantasmas que governam a narrativa. Pixelados, num tempo internauta, imortalizados por vídeos amadores. Quase presos pelos momentos de câmeras fotográficas não clicadas. Seguindo os vivos angustiados pela monotonia da tranquildade da cidade. A cidade, espaço onde pessoas transitam. Espaço que conecta pessoas, mas que não as traduzem.

Forquetá não é o símbolo da cidade pequena. É o símbolo do homem pequeno, do homem preso, do homem acostumado a seguir os passos de outros homens que seguiram passos de outros. A tradição da não comunicação. Um lugar onde as pessoas se veem, mas não se enxergam.

É o sinônimo de um mundo atual onde máscaras sociais são usadas para que ninguém veja nada por dentro. Para que os olhos sejam só guardadores de pó, não visualizadores de vontades. Para que olhos não notem as perdas.

………. é o menino de Bob Dylan.  Aquele de Mr. Tambourine, que não dorme, mas que também não tem nenhum lugar para ir. Aquele que fica a olhar um Universo onde ninguém toca canções que mudam as vidas, onde sua essência é assombrada por músicas passadas e fantasmas imortalizados pelo youtube . Quando ele escreve Estar perto não é físico, o perto que ele conhece vem dos mortos da cidade. Do fio quase invisível que os conecta através de Mr Tambourine.

De ritmo lento, Os Famosos e os Duendes da Morte não fala sobre grandes mudanças, transformações sensacionais ou catarse de personas. É um filme de sensações, como Saliva. É um filme de pequenos recortes, de como algumas pessoas enxergam a vida através de uma lente embaçada. É um filme de olhos, de toques incompletos e de como as perdas são assombradas por canções.  E você vai querer ouvir velhas canções de Bob Dylan. De novo. E de novo. E “Se tu sentir saudade, deita na minha cama e olha para o teto do meu quarto (…) Chove toda vez que eu sinto saudade, mas algumas coisas ficam mais bonitas quando se transformam em lembranças. A última caiu, não faz muito tempo. Ela está no bolso de trás da minha calça e vai ficar aqui até quando eu voltar e te abraçar de um jeito tão mais forte do que tu poderá entender”.