2019 litros de respingos

Publicado: abril 26, 2019 em Contos

Tinha costume de colecionar fósforos usados. Adorava os de cabeça verde, apesar de ter simpatia pelos de cor-de-rosa. Mas achava os pretos elegantes, imponentes e clássicos. Às vezes passava horas juntando as pontas e pensando que talvez fosse a chama um resquício de alma pendurada, uma voz rouca que te sussurra em momentos que tudo parece queimar.

Gostava do ato de riscar. O verde, o rosa, o preto, tudo virava lume. Se sentia espiral em construção, perspectiva avançada de algum ponto em vertigem. Alguma reação em física póstuma, solta em um pedaço de universo que teimava em se desdobrar. Dona de 2019 litros de respingos.

Talvez quisesse um dente de leão em fuga, alguém que atirasse música como quem estala os dedos, um afeto que olhasse para suas cutículas e não seus dedos.

Sentia falta daquele momento respiro, a brevidade entre som e silêncio, o cair que você observa quando está do alto, a negligência de não olhar para os dois lados.

Queria o antes, a expectativa, a fundação, o quente da raiz da árvore, o primeiro piscar de quem deixa de adormecer. Quando riscava fósforos, independente da espécie, era tipo linha e costura, banjo e trompete, incenso e fumaça, acre e luz, noite e luneta.

Alguém com olhos de estrelas decadentes em petricor.

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