Arquivo da categoria ‘Diário de Bordo’

eu mudei. Mas não sei muito bem falar sobre isso.

Amsterdã, Holanda

Amsterdã, Holanda

Badalona, Espanha

Badalona, Espanha

Barcelona, Espanha

Barcelona, Espanha

Berlin, Alemanha

Berlin, Alemanha

Abbey Road, Inglaterra

Abbey Road, Inglaterra

Montserrat, Espanha

Montserrat, Espanha

Paris, França

Paris, França

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Duas semanas são 14 dias, 336 horas, 20.160 minutos. Observações de um inverno que chegou enfim a 0 graus. Inverno, essa coisa que ouvi tanto falar e que agora corta meu rosto, transformando minhas bochechas em dois pontos rosados, como quem pega sol. O vento transforma minha face em algo fino e sensível. O frio alisa meus fios de cabelo e até jornal coloquei dentro da bota pra ver se meus dedos relaxam, mas tudo fica úmido na cidade cinza. Meus cabelos, meus dedos e minha alma.

A sensação térmica e a intensidade do frio pela ponta do nariz dividem espaço com o que mais me encanta nesse lugar temporário que ouso chamar de lar. É estranho dizer que me sinto em casa. É aqui que vejo tantas outras pessoas caminhando com livro em suas mãos, equilibrando leitura e pressa de chegar em algum lugar. É aqui que bebo chocolate quente com marshmallow e creme. É aqui que entro e saio de lojas e lugares como se me sentisse invisível, coisa de quem gostaria de ir ali só pra ver, mas sem explicar o que tá fazendo ali. É aqui que ouço o silêncio nas ruas, cortado por pés que caminham, “sorry” e música. É aqui que ouço música. Gratuita. Pulsante. Como se ela fizesse mais parte da cidade do que a cidade dela própria.

O artista que joga no ar toda sua sensibilidade pra cidade. Pra si. Pro outro. Pra nós.

 

O criar como ato de conexão.

 

A arte das ruas.

 

Uma amiga minha me enviou certo dia a seguinte frase: “Nesta cidade, não preciso conhecer o caminho das ruas. As ruas sabem o meu caminho”, Pedro Bial, em “Ares Londrinos” (Crônicas de Repórter).

Vagar pelas ruas é confiar nelas. E foi confiando que meus pés foram guiados até um local chamado Proud Camden. “Você não precisa pagar, é só entrar. Boa diversão,” o segurança falou. Então a porta se abriu e me deparei com um local que eu queria ter do lado da minha casa brasileira.

E foi lá que toda aquela umidade do inverno passou e entendi porque as pessoas prezam tanto “lar é onde seu coração está”. Foram 5 shows de graça, uma cerveja e minha alma lavada por essa sensação de conforto e pertencimento. O que fazer em Londres quando você não sabe o que fazer em Londres? Caminhe. O lugar te espera.

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Westminster Abbey

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Neasden Temple

Preto básico. Arte de rua.

Preto básico. Arte de rua.

Vermelhor cor.

Vermelho cor.

Entre grades

Entre grades

King's Cross Station

King’s Cross Station

Olhar míope

Olhar míope

Amor através dos séculos

Amor através dos tempos

livros na British Museum

livros na British Museum

Lira (British Museum)

Lira (British Museum)

St James's Park

St James’s Park

HP Warner Bros.

HP Warner Bros.

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More for me.

Camden

Camden

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Fim da tarde, inverno de 2013

London Eye
London Eye

 

 

 

Meia hora depois, inverno de 2013

Meia hora depois, inverno de 2013

Tenho que confessar que não sou muito fã de atrações turísticas nem desse desespero de turista de tirar foto de monte de monumento, mas quando saí da estação de Westminster e dei de cara com a Tower Clock saiu um “UAU, isso é impressionante.” Às 4 horas da tarde o céu entra em processo de recolhimento e a capa cinza londrina paira sobre a cidade. É inverno. Quando chego às 5 em frente ao relógio ele está imponente, como sempre esteve. Não sei se é o peso histórico ou o tamanho mesmo, mas os olhos piscam muitas vezes e penso ‘Nossa, eu realmente estou aqui. E esse relógio realmente existe.’

A arquitetura de Londres é espetacular. É como se ela resistisse ao tempo. E o tempo está presente em todos os detalhes, misturando-se ao novo e ao antigo. Certa vez no TimeOut o romancista Ford Madox Ford em The Soul of London disse que ‘A Inglaterra é um país pequeno. O mundo é infinitésimo. Mas Londres é ilimitável’. A cada dia que passa isso pula em meus olhos. Todo mundo sabe os males que a Inglaterra fez em diversos países, mas apesar dos preconceitos que citei no post anterior (que existem em outras partes do mundo também) e dos problemas que ainda vou ver  há uma mistura de pessoas que pulsa. Nunca senti isso no Rio de Janeiro. Não sei se é o tanto de história que aprendemos sobre a Europa, mas isso vem misturado aos lugares. Eles me parecem familiares. É como se automaticamente eu soubesse como andar no metrô, contar as moedas e principalmente reconhecer as esquinas. É como se tudo fosse vivo.

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ChinaTown

As pessoas em Londres são bonitas. Crianças, idosos, jovens, adultos. Elas são bonitas. Não há lixeiras nas ruas. E quando achamos uma, ela simplesmente está quase vazia. Pelas ruas casais se acariciam no rosto, no estilo mais romântico possível. Parece que estou dentro de uma comédia romântica. As crianças conversam com os pais. Os pais conversam com os filhos, não vi até hoje um grito. Até o choro dos bebês parece ser mais baixo. Seria o frio? – curiosidade minha.

Dia de domingo, nas estações de metrô, as pessoas cantam e a música se espalha. É como se a cidade fizesse parte de uma trilha sonora, de diversos ritmos e tons. Aos poucos, o som de Londres se apresenta. E é bacana ouvir.

King's Cross Station

King’s Cross Station

“Aliás, a moça me contou uma vez que tinha encontros diários com as suas contradições”  (Manoel de Barros)

hot drinkHammersmith é o lugar onde estou. Última estação de metro da linha Hammersmith & City. Aqui tem muito chocolate quente com creme e pessoas gentis que falam Thank you o tempo todo e I’m sorry como extensão de contato físico. Se você estiver com dúvida elas param, ouvem e te ajudam facilmente. Há uma educação que funciona e um código de conduta que as pessoas esperam de você para que a cidade funcione.

Abaixo do hostel há um bar chamado Belushi. Pessoas cantam Wonderwall e hinos de seus times de futebol. Deixa a alma mais leve vê-las puxando coro e o bar em ritmo de canção. Posso escrever na mesa e sorrir pra esse tipo de Londres.

Mas tem um outro lado de Londres que só olhando bem no fundo do olho que a gente consegue perceber. Londres está repleta de indianos. A grande maioria em empregos subalternos. Com eles diversas nacionalidades cruzam as ruas. Até fiquei pensando se alguma hora eu realmente iria encontrar com algum inglês. E junto de tudo isso um preconceito ora velado ora escrachado atinge quem não estiver dentro do padrão. Dentro das lojas, por exemplo, pessoas se xingam por simples falta de compreensão mútua. Estava eu observando um grupo de meninas rindo pela loja (paquistanesas? árabes? mestiças, com certeza). Do nada uma inglesa perguntou se elas estavam rindo dela. Não sei em que altura a falta de comunicação e o preconceito enraizado explodiram, mas elas se ofenderam e toda aquela etiqueta de educação fora jogada fora (da loja também). Londres  é uma cidade que aceita todos, mas quem não é inglês fica à margem do que é considerado seguro.  Fico a pensar: mas o que é seguro aqui?

O taxista, paquistanês, me disse pra tomar cuidado com alguns lugares de Londres porque havia “black people”. Ele simplesmente usou a seguinte frase: “Pessoas negras são perigosas, elas te roubam, pegam sua bolsa, não te pagam.” “Mas isso é preconceito”, retruquei. “É preconceito, mas é verdade”, ele afirmou. “Mas e se eu fosse negra?” perguntei porque ele foi muito gentil comigo e atencioso e eu não conseguia entender como alguém poderia ter atitudes tão contraditórias. “Se você fosse negra, eu não te levaria. Ou então eu pediria o dinheiro antes. Eles são perigosos.”

Calei-me. Há certas coisas que não devemos insistir porque elas são do jeito que são. No mesmo dia pude ver que em etnias/cores diferentes o outro é sempre perigoso. Porque o outro não sou eu. Um menino aqui do hostel me contou que o preconceito é por debaixo dos panos. Ele se diz “brown” (é de Bangladesh). Morador da cidade há 8 anos, pra ele, os ingleses não são tão gentis como eu lhe descrevi.

Eles foram gentis comigo. Não apenas um, mas 98% das pessoas que abordei foram atenciosas e prestativas. Me deram dicas, caminhos e até sorrisos. Mas fiquei um tanto chocada ao observar que essas mesmas pessoas têm outras visões que a meu ver não condizem com esse mundo cheio de tecnologia e “liberdade” que vivemos. Não consigo entender esse preconceito de cor e etnia. Eu tento, mas é como se isso fosse um alien desengonçado que vaga sem rumo que continuo a não compreender, por mais que eu veja solto por aí.

Grandes metrópoles se parecem. No pub irlandês que fomos havia uma banda brasileira e muitos estrangeiros. Tinha de tudo, mas nada me lembrava a Irlanda. Vagar pelo Soho me trouxe lembranças da Lapa, só que aqui têm mais luzes nos puteiros e nos sex shops. É até meio vintage o sexo.

DSC09660China Town perde fácil pras pastelarias chinesas de Nova Iguaçu. O que difere é que ao invés de baratinhas iguaçuanas temos diversos animais expostos.

Há também muitos orientais por Londres. Às vezes vou às lojas e parece que estou dentro de um mangá. As roupas são baratas e os produtos de supermercado também. As refeições são fartas, parece que todo mundo come muito. Acho que desde que entrei no avião e vim pra cá comi mais do que toda a semana passada. Queria saber porque me dão tanta comida… O ar no metrô é pesado, mas as ruas têm um frenesi que só quem curte andar nas ruas entende. Todas essas pessoas de diferentes cores andam pra lá e pra cá com seus sotaques britânicos, movimentando a cidade de forma silenciosa.

Sim, posso dizer que aqui o silêncio parece ter uma importância que ainda estou a descobrir.

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Uma coisa que eu joguei no google e ele me deixou confusa: como é chegar na UK border? O que eles pedem pra gente lá? O que acontece? Será que haveria um questionário e eu teria que mostrar todo o dinheiro que possuía?

Então tudo começou assim:

d387269280ece5409ad829b3c775-postMalas despachadas, nada de objetos cortantes na bagagem de mão nem garrafas com mais de 100ml Fiz tudo que os vários blogs diziam e passei tranquilamente pela saída de meu país rumo ao país KEEP CALM AND CARRY ON. Mas o primeiro choque veio ao perceber que o DUTY FREE era tão caro quanto qualquer loja e que eu teria que passar pela polícia federal sem saber que estava passando pela polícia federal porque ninguém me dirigiu a palavra ou perguntou nada. Você é direcionado para uma outra fila e nada mais. Ninguém te diz pra que que serve a fila nem te pede pra ficar e ser um cidadão mais consciente.

O segundo choque  acontece no avião. Sempre tive uma ideia de que a classe econômica era menos privilegiada que a primeira classe, mas eu não tinha noção que os compartimentos da aeronave eram feitos para anões. Sim, anões da Terra Média, porque não há ser humano de estatura normal que aguente aquela coisa espremida chamada de assento. É tão apertado que eu, no auge de meus 1,56m fui esticar minhas pernas certa hora e dei uma banda na comissária de bordo inglesa que quase se estabafou no chão e olhou pra trás xingando em uma língua ancestral uma pessoa que não existia, não percebendo que era eu a culpada.

A gente sai do país simples assim, descendo do avião, olhando os cinzeiros de maconha de Amsterdã e se perguntando como é fácil cruzar fronteiras. Logo depois todo o encanto de liberdade passa quando você entra em outro avião e percebe que o segundo transporte é mais apertado que o primeiro e que além de ficar espremida, você ainda tem que aguentar o cecê importado. (Juro que não consigo entender como alguém ainda pode ter mal cheiro nas axilas pós-modernas com tanta tecnologia no mundo) E aí você ouve o inglês desses funcionários da companhia aérea e se desespera porque não consegue entender bulufas. Junto de tudo isso eles te dão muita, mas muita comida. Não consigo entender como alguém consegue comer tanto em onze horas de voo. E as horas passam. Rápidas, pra ser sincera. Se você tem pressão baixa como eu, as horas serão minutos sonhados. Você poderá ver alguns filmes e ler um livro,  mas nada além disso porque o barulhinho do ar condicionado te dará sono, ainda mais quando você vem de um Rio de Janeiro sem refrigeração em casa.

E antes da viagem aérea acabar alguém pergunta se você precisa de um landing card. Landing card? Mas o que é isso? Dentro do avião, eles te dão um papel pra você preencher com seus dados: nome, sexo, data de nascimento, quanto tempo irá ficar no país, onde, profissão, número de passaporte e assinatura. Apenas isso. Aí você desce do avião achando que terá que decorar rapidamente o endereço do hostel e descobre o primeiro sinal de que Londres é uma cidade cosmopolita: quem te faz as perguntas é um moço da Índia. E a primeira pergunta que ele faz é: DO YOU SPEAK ENGLISH? Aí você diz YES e ele responde OH THAT’S GOOD. E ele te pergunta as mesmas coisas que estão no papel, além de Quanto de dinheiro tu tem? Depois que ele disser THANK YOU isso quer dizer que você está no país dele.

Aí você aprende por instinto como pegar o metrô (depois de perguntar pro agente onde fica a estação e ele responder TEN SECONDS LATER ON THE RIGHT – típico humor britânico) e se encanta pelos diversos sotaques no transporte, a chuva que cai e os prédios que passam. E então você decide mudar sua localização no Facebook pra Londres e percebe que mais de 40 pessoas curtiram sua foto só porque você não está mais em seu país e percebe que há um mundo gigante pra conhecer, mas que no fundo, as coisas ainda são mais simples do que imaginamos. Não há nada demais no exterior, mas o mistério  permanece: carregamos nos olhos o encanto.

Viajar é encantar e se desdobrar. O resto é encontro de lugares e pessoas.

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Estarei fora do país amanhã pela primeira vez. De repente foi assim: eu desejei há muito tempo atrás e então aconteceu. Agora. No momento em que eu tinha esquecido que possibilidades se tornam fatos. Assim, meio mágico mesmo. Serão 32 dias, 768 horas  e milhares de batimentos cardíacos. Tudo pago pela minha tia. “Mas viajar te ajudará de alguma forma? Será bom pra você, certo?” ela me perguntou. Balancei a cabeça concordando. Não sei porque concordei, mas concordei.

O que será que vai ser bom? Por que agora? O que vou fazer lá? Por que ganhei uma viagem assim do nada? O que Londres tem pra mim? Frases que futucaram minha mente durante um bocado de tempo agora não têm tanta importância.

A frase de Martin Buber que diz que ‘todas as jornadas têm destinos secretos que o viajante não tem consciência’  é o resumo do que está por acontecer. A sensação que eu tinha quando desejava conhecer outras culturas e ouvir inglês pelas ruas voltou. Assim como a curiosidade em conhecer comportamentos. A vontade de explorar. A busca pelo observar. As particularidades do cotidiano, olhares, céus, pulsações que conectam pessoas independente de língua ou espaço ou tempo.

O Universo vibra o que queremos. Cedo ou tarde tudo chega perto de nós.

Esse diário de bordo chamado “O QUE FAZER EM LONDRES QUANDO VOCÊ NÃO SABE O QUE FAZER EM LONDRES” é a tentativa de conectar minha experiência com alguém (provavelmente quem lê este post agora). Será minha tentativa não de apontar como chegar aos pontos turísticos, mas de encontrar as peculiaridades que faz de Londres a cidade que é.

Meu coração pulsa por encantos e desencantos porque o caminho que cruza o destino já foi traçado. Basta agora ir lá, ver e escrever. Compartilhar também aumenta o mundo.

Eu sempre viajei sozinha. E o maior sonho de quem sempre viaja sozinho é encontrar alguém para dividir viagens. Não falo de gastos financeiros ou rotas (que muitas vezes também são bem vindos!), mas dividir o céu que nos cobre lá do outro lado do mundo ou o pedaço de estrada que se percorre.

Dividir o céu é compartilhar o que se vê pelo caminho. Um bom viajante não leva bugigangas, leva estórias, leva imagens que passam, leva sensações que ficam. Alguém pra lembrar junto.

Consegui arrastar alguns amigos para algumas viagens. Um se encantou com as cores de Trindade, outro com a carona em cima de caminhão aberto, outro com o animal exótico que passou entre nós. Alguns amigos até gostaram de dormir em barracas com colchões moles. Mas a vida empurra a gente e os amigos que um dia levantavam a bandeira ‘vamos, eu vou contigo’ agora querem emprego estável, planos a longo prazo, automóveis para supermercado e conforto de hotel com mais de 4 estrelas. Cada pessoa escolhe sua prioridade.

Já me perguntaram porque eu não cato qualquer pessoa em qualquer site de viajantes para rachar isso que quero. Respondo que isso é o mesmo que viajar sozinha. Quando viajo sozinha, trago amigos pra vida. Quando decidi ir para Curitiba e ficar por lá 1 mês sem conhecer ninguém, trouxe pessoas importantes para perto e que estão perto até hoje. Quando fui ao Ceará ganhei um amigo dentro de um avião. Quando fui a Recife trouxe duas paulistas.

Quando se viaja sozinho, as pessoas ficam mais dispostas a estar perto. Acho que é essa tendência de achar que quem está só está triste. O que tenho visto é que as pessoas que viajam sozinhas têm mais facilidade de troca do que as que viajam em grupo. Os grupos em albergue nunca param para conversar com as pessoas mais observadoras. Estão presos em seus itinerários e em seus pontos turísticos.

Eu gosto de andar a pé e descobrir aos poucos o que as ruas trazem. E é pelas andanças e pelos guetos que se descobre como o lugar vive. A gente acha coisas incríveis e coisas absurdas e são esses achados que sinto mais falta de compartilhar. Porque há coisas que só compartilhamos quando somos íntimos. Caso contrário, guardamos em comentários mentais ou escritos.

Já fiz dossiês sobre lugares para tentar convencer meus amigos que vivem dando desculpas de adulto e sermões de responsabilidade e futuro. Vivo enviando emails sempre antes do Carnaval e feriados.

“Não precisamos de dinheiro, é só planejar. Eu calculo a rota mais barata” sempre falo. Mando emails com fotos espetaculares dos lugares, cotação de acomodações baratas e bacanas, mas acabo sempre viajando sozinha. Ou me decepcionando.

Então fuxicando os milhares de sites de mochileiros, viajantes e malas a fora, vi o relato de uma mãe dizendo como tinha transformado a vida de seu pequeno com suas andanças por aí. Como ela sentia orgulho dele quando o menino viajara sozinho pela primeira vez, quando ele repetia as dicas que aprendera com ela para os amigos, quando os dois viam juntos algo que ninguém mais via.

Tenho a teoria de que se tudo é muito complicado é porque não está em equilíbrio, então não é pra ser. Todas as vezes que insisti em coisas muito difíceis, elas nunca deram certo. Para viagens, isso é 100% certo.

Aí olhei para dentro de casa e vi um menino de 8 anos que havia vibrado comigo quando fez trilha pela primeira vez, que havia reparado no orvalho da barraca em algum dia de verão de algum dia. Deixei pra lá as pessoas que me dão desculpas de que não podem ir. Porque tudo não passa de desculpa.

Minha primeira viagem consciente com o pequeno de 8 anos foi algo curto há alguns dias atrás. A gente andou pela praia e colheu conchas para um dia encher uma garrafa de vinho transparente. Ele pulou ondas maiores que seu corpo e me mostrou todas as águas vivas e o que havia aprendido sobre elas. Na volta, me cedeu o lugar na janela (vício de viajante solo) e ainda comentou:

– Olha, vamos sentar em cima do motor, vai ser tipo uma massagem.

Eu sorri. A tal da massagem chacoalharia nossos corpos e 15 minutos depois ele estaria dormindo de um lado e eu do outro, com um fone de ouvido e um céu que nos cobria. Às vezes está mais perto do que a gente imagina.