Down in Mexico

Publicado: agosto 13, 2015 em Contos
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Tinha aquela coisa de balançar o corpo só em trilha sonora de Quentin Tarantino.

Quadril, pernas, mindinho. Era a única garota que conheci que conseguia balançar o dedo pequeno.

Procurei-a em bares e cigarros, mas Jonas sempre me dizia: Cara, ela era fantástica.

Cruzei mares gritando Sereia, com esperanças de achá-la em conchas raras.

Nem o hálito me recordo mais, só sei que…

quando escuto a trilha sonora de Death Proof eu balanço meu quadril, mas meu mindinho não se move por saudade.

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Eu estou desempregada e com isso pego bicos que não me agradam, com contextos que discordo para pagar aluguel e comprar comida. As pessoas muitas vezes não entendem quando digo que não posso ir no lugar tal porque não tenho dinheiro e vivo em crise existencial porque na verdade não sei para onde ir. Fico repetindo a frase em looping “será que tudo isso vale a pena?”

Há um tempo atrás eu tinha palavras dentro de mim. Elas pulsavam e saíam de meus poros e eu conseguia espalhá-las não porque eu queria ganhar dinheiro com elas, mas porque achava que elas poderiam acalentar a existência de alguém, em algum lugar, que também estivesse nesse caminho bambo de vida. Eu não me preocupava com o fato de que tinha que vender palavras nem a porcentagem de lucros que elas poderiam me acarretar. Eu apenas criava.

Hoje, as palavras querem dizer quantidade de dinheiro que pode chegar até minha pessoa. E isso me corrói por dentro. Me dá tiros na alma nesse mundo de consumo. Vender WXY de livros. Produzir HIZ de conteúdos. Porcentagens e cálculos, rentabilidade em um país de crise. O número de curtidas que se leva em um post simples e que alguém me diz que tem que se transformar em venda.

Eu não produzo de coração limpo há muito tempo. E quando alguém aparece do nada, me mostrando como eu era, às vezes tenho vontade de agarrar meu eu do passado e dizer Não vá embora, fique um pouco mais. Ninguém sabe fazer o que você me faz. Quando te sopram por dentro, você realmente sente.

Hoje houve uma sacudida na vida. Parei para pensar e ter coragem de dizer e aceitar que as palavras produzidas por mim são pequenos elos que tocam uns e talvez outros, ou ninguém ou apenas uma pessoa. Mas quando elas são lidas, é como se eu quisesse dar um abraço e dizer Também estou aqui, com você, por você. Vamos apreciar a vista por um momento. Talvez isso seja o verdadeiro sentido de escrever. Você se conecta e ponto. Nesse mundo louco de produção de conteúdo rápido acabamos esquecendo o que Roy Rudnick disse uma vez, “o dia de amanhã ninguém usou, pode ser seu.”

E o espaço do “seu” deve ser preservado com cuidado. Frágil como ele, intenso e fulgaz, muitas vezes quer nos abandonar, por medo de não ser compatível com o mercado. Mas o que é o mercado a não ser números e probabilidades?

Se o que você fez foi abraçado por alguém em algum canto do mundo, mission completed. Antigamente escritores tinham um público de cem pessoas, agora é necessário milhões para que suas palavras sejam eficazes?

Um abraço para você, “omeunomeenuvem”, que me trouxe a alegria de recuperar essa sensação de troca, de amor e de valor às coisas simples. Inspirar e expirar. Uma coisa e outra.

omeunomeenuvem

Desmemória

Publicado: julho 8, 2015 em Contos

Cada um em um pedaço de língua, tentando descobrir como o tempo poderia diluir espaço e falta física.

Illustration by Inna Kapustenko

Illustration by Inna Kapustenko

Er(r)os

Publicado: julho 6, 2015 em Contos
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Encontrou o Amor perto do sorvete Itália. Vinha com uma barba mal feita, olhos pequenos e sorriso cativante. Ela piscou e ele estava na esquina.

– Qual seu nome? – ela perguntou.

– Amor, ele respondeu.

Ela riu.

– Não é possível.

– É sim, disse o Amor tão encantador quanto astro de filme.

– Quem me garante que você é o Amor mesmo?

Mostrou os braços tatuados de textos bíblicos e coraçãozinho. Ela revirou os olhos e ele tirou a flecha clássica de Cupido e cravou no coração dela, que esperava um movimento menos brusco. Apaixonou-se. Mas ele era o Amor, de anjo tinha nada.

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Infinitesimal

Publicado: julho 4, 2015 em Contos
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Dentro da xícara de café havia aquela imagem que lembrava o infinito. Ficou boiando nitidamente até ela fixar os olhos e a imagem parar.

A mulher tentou desmembrar a figura com a ponta dos dedos, mas a imagem se juntava e boiava, como se infinito fosse para sempre.

Intrigada, ela trouxe uma lanterna e jogou luz sobre o líquido. O infinito, que era perfeito, tinha uma fixação por escuro. Quando a luz foi projetada, ele escorregou. E dali nasceu que o para sempre, sempre acaba.

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Meow

Publicado: julho 1, 2015 em Contos
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A mulher que havia derrubado a garrafa de vinho nunca tinha visto gatos.

E eles chegavam em bandos, miando em cio, coloridos, pretos, cinza claro. Subiam o telhado enquanto que ela fechava desesperada a janela de madeira. A mão tremia, os ossos doíam de frio porque junto deles o vento mudava de direção.

Mas os gatos continuavam se agrupando em volta da casa, como se maior o medo fosse, mais eles se sentiam hipnotizados. E entre receio e o estado de embriaguez, ela gritou. Gritou tanto que os gatos miaram como em resposta. E a mulher em meio ao pânico do desconhecido, escondeu-se debaixo da mesa da sala. E os felinos, instigados por afeto, adentraram. Ela, com coração em vermelho, estrangulou um, depois outro e mais outro. Quando viu tinha perdido sete vidas. E a partir dali, o mundo de má sorte.

I'm a survivor (What?) I'm gonna make it (What?)

I’m a survivor (What?)
I’m gonna make it (What?)

Amor

Publicado: junho 30, 2015 em Contos

Encontrou o Amor em um dia de domingo. Ela trazia uma caixa de morangos e conversa ao pé de ouvido:

– Vem sempre por aqui?

– Não, só costumo passar aos saltos.

Ela saltava de prédio em prédio, de montanha para riacho, de abismo para o colchão. A habilidade de se deslocar misturada com a aptidão do silêncio.

– Raramente caminho.

– Devia usar mais os pés, disse-lhe o Amor.

– Tá, se assim diz.

O Amor mostrou que sentir a terra pelos dedões poderia trazer alívio, como misturar lama e unha poderia equilibrar o coração e como andar na ponta dos pés a faria lembrar de sonho antigo.

Quando foi embora na segunda-feira em uma moto azul índigo, ela estava com olhos marejados e só conseguiu balançar o queixo como um gesto de gratidão. O Amor acenou. Essa coisa de gente livre.

Joysuke

Joysuke

Homeostático

Publicado: junho 29, 2015 em Contos
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A Morte bateu na porta em uma segunda. Trajava uma camiseta preta desbotada e jeans surrado. Ele esperava que também trouxesse a verdade, mas isso era trabalho do Ceifador, ela não tinha tempo para isso.

Ele deitou esperando rapidez, mas hoje ela queria algo mais dramático. Esperou ele colocar sua música preferida, queimou a lâmpada da sala para que ele usasse uma escada e quando ele subiu ao último degrau, se transformou em uma mosca varejeira, pousou no nariz e o derrubou, sem dar tempo ao conserto da lâmpada.

A cabeça ficou lá, um tanto desnorteada, escorrendo sangue e o Ceifador trouxe a verdade, mas ele estava com olho vermelho demais para ver. A Morte esperou o fim da música e o levou. Até hoje ninguém consegue tirar a mancha do chão. Você pode tentar coca-cola quente, mas acho que não dará certo. Já o bocal da lâmpada, ele precisa de reparo a cada três meses.

Por Kelsey Beckett

Por Kelsey Beckett

O fabuloso destino de Julia Flor

Publicado: junho 24, 2015 em Contos
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Julia não comia geleia. Ela adorava degustar flor. Desde bebê ficava encantada quando a luz batia por entre as pétalas e o vento sacudia o caule e parecia transmitir amor. Passava às vezes dias com rosas, margaridas e tulipas. Horas escolhendo aquelas que tinham menos pólen. Minutos colhendo as de cores mais vibrantes e segundos retirando bichinhos dos dentes.

Alguns diziam que ela era dourada, outros que era uma menina doida que morreria de fome, mas a única coisa que todos concordavam: comer flor deixava os dentes perfeitos.

Homenagem à Julia Stones.

Homenagem à Julia Stones.

Um vale de nada

Publicado: junho 23, 2015 em Contos
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Nada era o nome dele. Quando compreendeu a dimensão que a palavra acarretaria em sua vida ele nem mesmo sabia ler. Achava bonita a sonoridade, mas nenhuma criança perdoava exóticos. Teve seu primeiro contato com o dicionário aos sete anos e foi ali que Nada sentiu o peso da palavra. Poderia ter ficado revoltado, angustiado ou triste. Mas não. Sentia-se livre. Deslinkado. Puro em essência.

Lembrou do amor da mãe que lhe dizia “Aqueles que não se incomodam com nada são os que realmente vivem no mundo. Você não é um nome, você é o tanto de existência que pulsa.”

Anos mais tarde sua esposa perguntaria porque ele não mudara o nome, mais fácil do que ser chacota. Ele sorrira e dissera Não.

Ele era mais. Os outros eram nada.