Eu estou desempregada e com isso pego bicos que não me agradam, com contextos que discordo para pagar aluguel e comprar comida. As pessoas muitas vezes não entendem quando digo que não posso ir no lugar tal porque não tenho dinheiro e vivo em crise existencial porque na verdade não sei para onde ir. Fico repetindo a frase em looping “será que tudo isso vale a pena?”

Há um tempo atrás eu tinha palavras dentro de mim. Elas pulsavam e saíam de meus poros e eu conseguia espalhá-las não porque eu queria ganhar dinheiro com elas, mas porque achava que elas poderiam acalentar a existência de alguém, em algum lugar, que também estivesse nesse caminho bambo de vida. Eu não me preocupava com o fato de que tinha que vender palavras nem a porcentagem de lucros que elas poderiam me acarretar. Eu apenas criava.

Hoje, as palavras querem dizer quantidade de dinheiro que pode chegar até minha pessoa. E isso me corrói por dentro. Me dá tiros na alma nesse mundo de consumo. Vender WXY de livros. Produzir HIZ de conteúdos. Porcentagens e cálculos, rentabilidade em um país de crise. O número de curtidas que se leva em um post simples e que alguém me diz que tem que se transformar em venda.

Eu não produzo de coração limpo há muito tempo. E quando alguém aparece do nada, me mostrando como eu era, às vezes tenho vontade de agarrar meu eu do passado e dizer Não vá embora, fique um pouco mais. Ninguém sabe fazer o que você me faz. Quando te sopram por dentro, você realmente sente.

Hoje houve uma sacudida na vida. Parei para pensar e ter coragem de dizer e aceitar que as palavras produzidas por mim são pequenos elos que tocam uns e talvez outros, ou ninguém ou apenas uma pessoa. Mas quando elas são lidas, é como se eu quisesse dar um abraço e dizer Também estou aqui, com você, por você. Vamos apreciar a vista por um momento. Talvez isso seja o verdadeiro sentido de escrever. Você se conecta e ponto. Nesse mundo louco de produção de conteúdo rápido acabamos esquecendo o que Roy Rudnick disse uma vez, “o dia de amanhã ninguém usou, pode ser seu.”

E o espaço do “seu” deve ser preservado com cuidado. Frágil como ele, intenso e fulgaz, muitas vezes quer nos abandonar, por medo de não ser compatível com o mercado. Mas o que é o mercado a não ser números e probabilidades?

Se o que você fez foi abraçado por alguém em algum canto do mundo, mission completed. Antigamente escritores tinham um público de cem pessoas, agora é necessário milhões para que suas palavras sejam eficazes?

Um abraço para você, “omeunomeenuvem”, que me trouxe a alegria de recuperar essa sensação de troca, de amor e de valor às coisas simples. Inspirar e expirar. Uma coisa e outra.

omeunomeenuvem

Desmemória

Publicado: julho 8, 2015 em Contos

Cada um em um pedaço de língua, tentando descobrir como o tempo poderia diluir espaço e falta física.

Illustration by Inna Kapustenko

Illustration by Inna Kapustenko

Er(r)os

Publicado: julho 6, 2015 em Contos
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Encontrou o Amor perto do sorvete Itália. Vinha com uma barba mal feita, olhos pequenos e sorriso cativante. Ela piscou e ele estava na esquina.

– Qual seu nome? – ela perguntou.

– Amor, ele respondeu.

Ela riu.

– Não é possível.

– É sim, disse o Amor tão encantador quanto astro de filme.

– Quem me garante que você é o Amor mesmo?

Mostrou os braços tatuados de textos bíblicos e coraçãozinho. Ela revirou os olhos e ele tirou a flecha clássica de Cupido e cravou no coração dela, que esperava um movimento menos brusco. Apaixonou-se. Mas ele era o Amor, de anjo tinha nada.

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Infinitesimal

Publicado: julho 4, 2015 em Contos
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Dentro da xícara de café havia aquela imagem que lembrava o infinito. Ficou boiando nitidamente até ela fixar os olhos e a imagem parar.

A mulher tentou desmembrar a figura com a ponta dos dedos, mas a imagem se juntava e boiava, como se infinito fosse para sempre.

Intrigada, ela trouxe uma lanterna e jogou luz sobre o líquido. O infinito, que era perfeito, tinha uma fixação por escuro. Quando a luz foi projetada, ele escorregou. E dali nasceu que o para sempre, sempre acaba.

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Meow

Publicado: julho 1, 2015 em Contos
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A mulher que havia derrubado a garrafa de vinho nunca tinha visto gatos.

E eles chegavam em bandos, miando em cio, coloridos, pretos, cinza claro. Subiam o telhado enquanto que ela fechava desesperada a janela de madeira. A mão tremia, os ossos doíam de frio porque junto deles o vento mudava de direção.

Mas os gatos continuavam se agrupando em volta da casa, como se maior o medo fosse, mais eles se sentiam hipnotizados. E entre receio e o estado de embriaguez, ela gritou. Gritou tanto que os gatos miaram como em resposta. E a mulher em meio ao pânico do desconhecido, escondeu-se debaixo da mesa da sala. E os felinos, instigados por afeto, adentraram. Ela, com coração em vermelho, estrangulou um, depois outro e mais outro. Quando viu tinha perdido sete vidas. E a partir dali, o mundo de má sorte.

I'm a survivor (What?) I'm gonna make it (What?)

I’m a survivor (What?)
I’m gonna make it (What?)

Amor

Publicado: junho 30, 2015 em Contos

Encontrou o Amor em um dia de domingo. Ela trazia uma caixa de morangos e conversa ao pé de ouvido:

– Vem sempre por aqui?

– Não, só costumo passar aos saltos.

Ela saltava de prédio em prédio, de montanha para riacho, de abismo para o colchão. A habilidade de se deslocar misturada com a aptidão do silêncio.

– Raramente caminho.

– Devia usar mais os pés, disse-lhe o Amor.

– Tá, se assim diz.

O Amor mostrou que sentir a terra pelos dedões poderia trazer alívio, como misturar lama e unha poderia equilibrar o coração e como andar na ponta dos pés a faria lembrar de sonho antigo.

Quando foi embora na segunda-feira em uma moto azul índigo, ela estava com olhos marejados e só conseguiu balançar o queixo como um gesto de gratidão. O Amor acenou. Essa coisa de gente livre.

Joysuke

Joysuke

Homeostático

Publicado: junho 29, 2015 em Contos
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A Morte bateu na porta em uma segunda. Trajava uma camiseta preta desbotada e jeans surrado. Ele esperava que também trouxesse a verdade, mas isso era trabalho do Ceifador, ela não tinha tempo para isso.

Ele deitou esperando rapidez, mas hoje ela queria algo mais dramático. Esperou ele colocar sua música preferida, queimou a lâmpada da sala para que ele usasse uma escada e quando ele subiu ao último degrau, se transformou em uma mosca varejeira, pousou no nariz e o derrubou, sem dar tempo ao conserto da lâmpada.

A cabeça ficou lá, um tanto desnorteada, escorrendo sangue e o Ceifador trouxe a verdade, mas ele estava com olho vermelho demais para ver. A Morte esperou o fim da música e o levou. Até hoje ninguém consegue tirar a mancha do chão. Você pode tentar coca-cola quente, mas acho que não dará certo. Já o bocal da lâmpada, ele precisa de reparo a cada três meses.

Por Kelsey Beckett

Por Kelsey Beckett

O fabuloso destino de Julia Flor

Publicado: junho 24, 2015 em Contos
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Julia não comia geleia. Ela adorava degustar flor. Desde bebê ficava encantada quando a luz batia por entre as pétalas e o vento sacudia o caule e parecia transmitir amor. Passava às vezes dias com rosas, margaridas e tulipas. Horas escolhendo aquelas que tinham menos pólen. Minutos colhendo as de cores mais vibrantes e segundos retirando bichinhos dos dentes.

Alguns diziam que ela era dourada, outros que era uma menina doida que morreria de fome, mas a única coisa que todos concordavam: comer flor deixava os dentes perfeitos.

Homenagem à Julia Stones.

Homenagem à Julia Stones.

Um vale de nada

Publicado: junho 23, 2015 em Contos
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Nada era o nome dele. Quando compreendeu a dimensão que a palavra acarretaria em sua vida ele nem mesmo sabia ler. Achava bonita a sonoridade, mas nenhuma criança perdoava exóticos. Teve seu primeiro contato com o dicionário aos sete anos e foi ali que Nada sentiu o peso da palavra. Poderia ter ficado revoltado, angustiado ou triste. Mas não. Sentia-se livre. Deslinkado. Puro em essência.

Lembrou do amor da mãe que lhe dizia “Aqueles que não se incomodam com nada são os que realmente vivem no mundo. Você não é um nome, você é o tanto de existência que pulsa.”

Anos mais tarde sua esposa perguntaria porque ele não mudara o nome, mais fácil do que ser chacota. Ele sorrira e dissera Não.

Ele era mais. Os outros eram nada.

Loading

Publicado: janeiro 22, 2015 em Das coisas que se aprende
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Ninguém me deu uma chave mágica e me disse “Pronto, você está adulta.” Já me sussurraram “Você não pode estar mais nessa fase”, “você não tem idade pra isso” e coisas do tipo “na minha época”. Mas ninguém nunca me disse “Sua tentativa de adulteza me comove, toma uma de verdade”.

Estou esperando até hoje o tédio passar, a angústia do futuro ir embora e as respostas pra onde devo ir (quando a vida confunde a gente num fio emaranhado que mais parece crescer do que chegar ao fim). Estou aguardando meu catálogo de adulto.

Sei lá, talvez um símbolo que signifique “você cresceu, ganha agora o bônus da certeza de que poderá ter certeza.” Ou um livreto com o mapa de que “suas emoções serão controladas com esse bando de experiências que passou.” Tô querendo meu diploma de amadurecimento como quem faz pedido para estrela cadente no céu. Porque eu tinha muito mais clareza quando eu era ontem.

Hoje é apenas um marco temporal de que sol aparece e sol se vai e somos neblinas flutuando pelo ar como quem entra em estado de estação. Três meses duram a marcação contínua, mas os dias oscilam em temperaturas.

Tô aguardando o sono pacífico do adulto, a sabedoria de quem consegue acordar cedo e dizer que me acostumei, a tal “agora tenho responsabilidade na Vida.” Sempre achei que essa tal Vida fosse esmurrar minha porta com suas impressões, frequência afetiva e palavras cândidas que me trariam ao peito a coragem de ser adulto. Mas o que acontece são só palavras minhas, literatura de boca.

Às vezes deixo a porta aberta pra que o dono dessa Vida de adulto passe em meu lar e entregue um Sedex que talvez não seja meu ou que talvez seja do meu eu de depois de amanhã (que eu não tenho a menor ideia se sabe o caminho de casa).

Estou esperando meu crachá de adulto e um punhado de linhas quietas, desenhadas em papel machê. Envios tardios, mensagens de paradeiro. Aguardo um”skip” nesse tempo em loading.

Por Alexander Jansson

Por Alexander Jansson