Baby, now

Publicado: agosto 17, 2015 em Contos

Era pequeno como riacho perante mar, grão perante infinitude, dor em meio ao caos. Conseguia desviar de feridas, mas toda vez que ouvia uma canção em canal de Internet, seu corpo todo paralisava e ele ficava ali, horas entre som e ruído,  querendo se ver livre da sensação, mas inerte.

Stay with me, todas as músicas diziam.

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#love

Publicado: agosto 14, 2015 em Contos

cpnyo

Achou que teria amor quando crescesse. Procurou nas flores, filmes e em sapatos desgastados. Cruzou com canções que mandavam pull e push o coração. Hoje é garçonete em um pub e sorri para todas as pessoas que atende porque acredita na máxima do “próximo”. Todas a acham simpática, mas ela só está ali pela porção de Onion Rings do fim do expediente.

Down in Mexico

Publicado: agosto 13, 2015 em Contos
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Tinha aquela coisa de balançar o corpo só em trilha sonora de Quentin Tarantino.

Quadril, pernas, mindinho. Era a única garota que conheci que conseguia balançar o dedo pequeno.

Procurei-a em bares e cigarros, mas Jonas sempre me dizia: Cara, ela era fantástica.

Cruzei mares gritando Sereia, com esperanças de achá-la em conchas raras.

Nem o hálito me recordo mais, só sei que…

quando escuto a trilha sonora de Death Proof eu balanço meu quadril, mas meu mindinho não se move por saudade.

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Eu estou desempregada e com isso pego bicos que não me agradam, com contextos que discordo para pagar aluguel e comprar comida. As pessoas muitas vezes não entendem quando digo que não posso ir no lugar tal porque não tenho dinheiro e vivo em crise existencial porque na verdade não sei para onde ir. Fico repetindo a frase em looping “será que tudo isso vale a pena?”

Há um tempo atrás eu tinha palavras dentro de mim. Elas pulsavam e saíam de meus poros e eu conseguia espalhá-las não porque eu queria ganhar dinheiro com elas, mas porque achava que elas poderiam acalentar a existência de alguém, em algum lugar, que também estivesse nesse caminho bambo de vida. Eu não me preocupava com o fato de que tinha que vender palavras nem a porcentagem de lucros que elas poderiam me acarretar. Eu apenas criava.

Hoje, as palavras querem dizer quantidade de dinheiro que pode chegar até minha pessoa. E isso me corrói por dentro. Me dá tiros na alma nesse mundo de consumo. Vender WXY de livros. Produzir HIZ de conteúdos. Porcentagens e cálculos, rentabilidade em um país de crise. O número de curtidas que se leva em um post simples e que alguém me diz que tem que se transformar em venda.

Eu não produzo de coração limpo há muito tempo. E quando alguém aparece do nada, me mostrando como eu era, às vezes tenho vontade de agarrar meu eu do passado e dizer Não vá embora, fique um pouco mais. Ninguém sabe fazer o que você me faz. Quando te sopram por dentro, você realmente sente.

Hoje houve uma sacudida na vida. Parei para pensar e ter coragem de dizer e aceitar que as palavras produzidas por mim são pequenos elos que tocam uns e talvez outros, ou ninguém ou apenas uma pessoa. Mas quando elas são lidas, é como se eu quisesse dar um abraço e dizer Também estou aqui, com você, por você. Vamos apreciar a vista por um momento. Talvez isso seja o verdadeiro sentido de escrever. Você se conecta e ponto. Nesse mundo louco de produção de conteúdo rápido acabamos esquecendo o que Roy Rudnick disse uma vez, “o dia de amanhã ninguém usou, pode ser seu.”

E o espaço do “seu” deve ser preservado com cuidado. Frágil como ele, intenso e fulgaz, muitas vezes quer nos abandonar, por medo de não ser compatível com o mercado. Mas o que é o mercado a não ser números e probabilidades?

Se o que você fez foi abraçado por alguém em algum canto do mundo, mission completed. Antigamente escritores tinham um público de cem pessoas, agora é necessário milhões para que suas palavras sejam eficazes?

Um abraço para você, “omeunomeenuvem”, que me trouxe a alegria de recuperar essa sensação de troca, de amor e de valor às coisas simples. Inspirar e expirar. Uma coisa e outra.

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Desmemória

Publicado: julho 8, 2015 em Contos

Cada um em um pedaço de língua, tentando descobrir como o tempo poderia diluir espaço e falta física.

Illustration by Inna Kapustenko

Illustration by Inna Kapustenko

Er(r)os

Publicado: julho 6, 2015 em Contos
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Encontrou o Amor perto do sorvete Itália. Vinha com uma barba mal feita, olhos pequenos e sorriso cativante. Ela piscou e ele estava na esquina.

– Qual seu nome? – ela perguntou.

– Amor, ele respondeu.

Ela riu.

– Não é possível.

– É sim, disse o Amor tão encantador quanto astro de filme.

– Quem me garante que você é o Amor mesmo?

Mostrou os braços tatuados de textos bíblicos e coraçãozinho. Ela revirou os olhos e ele tirou a flecha clássica de Cupido e cravou no coração dela, que esperava um movimento menos brusco. Apaixonou-se. Mas ele era o Amor, de anjo tinha nada.

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Infinitesimal

Publicado: julho 4, 2015 em Contos
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Dentro da xícara de café havia aquela imagem que lembrava o infinito. Ficou boiando nitidamente até ela fixar os olhos e a imagem parar.

A mulher tentou desmembrar a figura com a ponta dos dedos, mas a imagem se juntava e boiava, como se infinito fosse para sempre.

Intrigada, ela trouxe uma lanterna e jogou luz sobre o líquido. O infinito, que era perfeito, tinha uma fixação por escuro. Quando a luz foi projetada, ele escorregou. E dali nasceu que o para sempre, sempre acaba.

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Meow

Publicado: julho 1, 2015 em Contos
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A mulher que havia derrubado a garrafa de vinho nunca tinha visto gatos.

E eles chegavam em bandos, miando em cio, coloridos, pretos, cinza claro. Subiam o telhado enquanto que ela fechava desesperada a janela de madeira. A mão tremia, os ossos doíam de frio porque junto deles o vento mudava de direção.

Mas os gatos continuavam se agrupando em volta da casa, como se maior o medo fosse, mais eles se sentiam hipnotizados. E entre receio e o estado de embriaguez, ela gritou. Gritou tanto que os gatos miaram como em resposta. E a mulher em meio ao pânico do desconhecido, escondeu-se debaixo da mesa da sala. E os felinos, instigados por afeto, adentraram. Ela, com coração em vermelho, estrangulou um, depois outro e mais outro. Quando viu tinha perdido sete vidas. E a partir dali, o mundo de má sorte.

I'm a survivor (What?) I'm gonna make it (What?)

I’m a survivor (What?)
I’m gonna make it (What?)

Amor

Publicado: junho 30, 2015 em Contos

Encontrou o Amor em um dia de domingo. Ela trazia uma caixa de morangos e conversa ao pé de ouvido:

– Vem sempre por aqui?

– Não, só costumo passar aos saltos.

Ela saltava de prédio em prédio, de montanha para riacho, de abismo para o colchão. A habilidade de se deslocar misturada com a aptidão do silêncio.

– Raramente caminho.

– Devia usar mais os pés, disse-lhe o Amor.

– Tá, se assim diz.

O Amor mostrou que sentir a terra pelos dedões poderia trazer alívio, como misturar lama e unha poderia equilibrar o coração e como andar na ponta dos pés a faria lembrar de sonho antigo.

Quando foi embora na segunda-feira em uma moto azul índigo, ela estava com olhos marejados e só conseguiu balançar o queixo como um gesto de gratidão. O Amor acenou. Essa coisa de gente livre.

Joysuke

Joysuke

Homeostático

Publicado: junho 29, 2015 em Contos
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A Morte bateu na porta em uma segunda. Trajava uma camiseta preta desbotada e jeans surrado. Ele esperava que também trouxesse a verdade, mas isso era trabalho do Ceifador, ela não tinha tempo para isso.

Ele deitou esperando rapidez, mas hoje ela queria algo mais dramático. Esperou ele colocar sua música preferida, queimou a lâmpada da sala para que ele usasse uma escada e quando ele subiu ao último degrau, se transformou em uma mosca varejeira, pousou no nariz e o derrubou, sem dar tempo ao conserto da lâmpada.

A cabeça ficou lá, um tanto desnorteada, escorrendo sangue e o Ceifador trouxe a verdade, mas ele estava com olho vermelho demais para ver. A Morte esperou o fim da música e o levou. Até hoje ninguém consegue tirar a mancha do chão. Você pode tentar coca-cola quente, mas acho que não dará certo. Já o bocal da lâmpada, ele precisa de reparo a cada três meses.

Por Kelsey Beckett

Por Kelsey Beckett