“O futuro dedilhou-me. Tocou-me blues.”
O homem de bigode ralo, pele rosada e dobras fartas bravejou ao barco que estava ali há três domingos.
Esse poderia ser um conto das montanhas fragosas, mas não era outono de 1827 e sim o outono dos séculos imperfeitos.
“O futuro dedilhou-me. Tocou-me blues.”
Nabu era seu nome e ele bravejava as palavras do profeta. O homem das dobras fartas conhecera o profeta das águas que levavam ao céu em um dia não-chuvoso. Caminhava entre as pedras quando o profeta o abordou:
“Filho, venha cá. Tenho seu futuro no dorso da mão”.
Aquele que tinha o bigode ralo acariciou seus pelos faciais e aproximou-se.
“Muito bem. Sabia que assim deste o primeiro passo para o futuro próximo?”
A pele rosada avermelhou-se.
“Hum… Muito bem, anos, muitos anos, algumas pedras e um caminho para salvação. Tu andarás pelo ritmo daqueles que percorreram a rota do blues” – e assim o profeta tocou a ponta do dedo mindinho de Nabu. – “Prevejo uma vida de grandes sonhos e acordes”.
As dobras fartas balançaram com uma risada.
“Senhor, não sei nem ao menos assobiar.”
“Com seu novo mindinho saberás de coração como é o encanto nas montanhas e o som de New Orleans” – respondeu o profeta.
“E o que devo em troca?” – perguntou Nabu.
“Palavras, você repetirá essas palavras” – e sussurrou no ouvido do homem.
Nabu não saberia falar outras frases a partir dali. Ele repete “O futuro dedilhou-me. Tocou-me blues” para qualquer pergunta e qualquer resposta. Tornou-se um homem calado, mas com a maior capacidade musical desconhecida de toda a história da batalha das encenações musicais. No rio Yazoo ele se banha toda vez que perde inspiração e fica rouco e para que seu talento retorne dia após dia, ele precisa repetir a frase do profeta pelo menos três vezes ao dia. Como água, as palavras são sobrevivência. A música é apenas uma externalização daquilo que ele quer definir, mas perdeu a capacidade de verbalizar.
Já o profeta? Ele nunca mais foi visto.