Foi numa quinta-feira que teve um céu laranja e rosa.
Eu adentrei o quarto e me deitei bem perto de minha avó. Ela tinha o cabelo cinza e a pele nem parecia tão velha assim, apesar de suas mais de oito décadas de existência.
Fiquei a pensar se a gente perde o cheiro quando vai morrendo.
– Então você nunca cheirou um pré-morto? – alguém me perguntaria.
– Não. Primeira vez.
Acho que o cheiro vai ficando fraco, fraco, até desaparecer a essência da pessoa. Aí a gente vai cheirando menos porque não há mais nada a cheirar. E o pré-morto vai ficando triste porque nem ele mesmo sente o aroma mais. Ele só tem lembranças do que não pode mais fazer. E o que ele não pode mais fazer tem cheiro e ele não.
Minha avó sentou na cama e disse naquele dia:
– Eu tenho uma tristeza profunda bem dentro. Vou pro céu da boca de alguém.
Eu ri. Ri porque eu ainda tinha cheiro. Eu ri.