O cheiro de Flora

Publicado: março 4, 2016 em Contos

Foi numa quinta-feira que teve um céu laranja e rosa.

Eu adentrei o quarto e me deitei bem perto de minha avó. Ela tinha o cabelo cinza e a pele nem parecia tão velha assim, apesar de suas mais de oito décadas de existência.

Fiquei a pensar se a gente perde o cheiro quando vai morrendo.

– Então você nunca cheirou um pré-morto? – alguém me perguntaria.

– Não. Primeira vez.

Acho que o cheiro vai ficando fraco, fraco, até desaparecer a essência da pessoa. Aí a gente vai cheirando menos porque não há mais nada a cheirar. E o pré-morto vai ficando triste porque nem ele mesmo sente o aroma mais. Ele só tem lembranças do que não pode mais fazer. E o que ele não pode mais fazer tem cheiro e ele não.

Minha avó sentou na cama e disse naquele dia:

– Eu tenho uma tristeza profunda bem dentro. Vou pro céu da boca de alguém.

Eu ri. Ri porque eu ainda tinha cheiro. Eu ri.

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