A Menina Submersa

Publicado: janeiro 9, 2015 em Resenhas
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Há muito muito tempo atrás eu tinha vontade de rabiscar os livros que lia. Conforme os anos passaram e os tipos de leitura aumentaram, essa vontade passou. Em A Menina Submersa, o meu livro está pintado. Duas palavras definem minha leitura submersa realizada em dois dias: curiosidade e encantamento poético. A cada página que passava, uma apreensão latente brotava e eu não conseguia parar de ler. É um livro agoniante, como se você estivesse preso em um looping de pensamentos de alguém. Isso te prende, mas também te cansa. Não que isso seja ruim, na verdade, foi o que me fez continuar.

Há tempos que não leio um livro que me instiga a roubar suas frases, há tempos que não tenho a sensação “queria ter escrito isso”. Você já teve a sensação de querer ter um frase para chamar de sua? Eu fiz uma listinha de minhas frases favoritas no fim desse post.

A Menina Submersa tem uma construção narrativa que emaranhada à percepção confusa de sua protagonista nos remete ao que considero “livro repleto de palavras bonitas.” Não é apenas uma alegoria, mas um encantamento, que nem nos contos de fada mencionados na narração. Encanta porque nos apresenta a um enredo absurdamente elaborado, onde cada palavra tem um peso especial à estória. E isso te deixa confuso.

India Morgan Phelps (a narradora e personagem principal) possui esquizofrenia desorganizada e junto a isso somos bombardeados por uma narrativa não linear, pensamentos que prezam pela sonoridade, um mar de referências a quadros, livros, músicas, lesbianismo, transexualidade. É também uma estória sobre corvos, fantasmas, mentiras, memórias. Em algumas partes me lembrava a atmosfera de Big Fish, do Tim Burton. O que é real? O que é imaginário? O que importa é que seja verdadeiro.

A Menina Submersa tem uma verdade única. Eu olhei pro livro pela frase de Neil Gaiman “Poucos escrevem como Caitlín.” Sim, ela escreve como pensa. Parafraseando o livro “é mais fácil lembrar-se da pele de alguém que a tonalidade de sua alma”. O que encontramos em A Menina Submersa são essas camadas de pele, traduzidas por palavras que tentam alcançar a inquietação e o obscuro de nossas mentes. Essas palavras querem ser lembradas, por mais que tendemos a esquecê-las.

A sinopse do livro diz que “é uma história de fantasmas habitada por sereias e licantropos. Mas antes de tudo uma grande história de amor construída como um quebra-cabeça pós-moderno, uma viagem através do labirinto de uma crescente doença mental.” Sinopses nunca definem o que sentimos quando lemos um livro, nem nos explicam por que alguns livros nos cativam e outros não. O que posso dizer sobre A Menina Submersa é que ele parece ser uma tentativa de se aproximar do que é frágil, do que nos quebra, do que nos define como seres únicos.

O romance é considerado uma “obra-prima do terror” da nova geração por causa de seus elementos de realismo mágico e foi indicado a mais de cinco prêmios de literatura fantástica, além de ser o vencedor do Bram Stoker Awards 2013.

Dentro do universo de A Menina Submersa há simplicidade e coisas triviais. Dentro desse universo há memórias. E memórias não possuem presente, passado ou futuro. Elas são o que são. Iscas jogadas em um mar. O tipo de peixe que as morde ou o tamanho que você levará para casa vai depender de sua paciência. Não é um livro leve, mas toda essa confusão tem uma ponta grande de boniteza. É essa a assinatura da autora.

 TOP 7 FRASES FAVORITAS DE A MENINA SUBMERSA:

  1. “Não há razão para ficar fora de casa à noite, sob o céu noturno, se eu não puder ver as estrelas.”
  2. “Eu sei agora como resumir o cheiro do apartamento. É cheiro de tempo.”
  3. “um céu amplo e carnívoro”
  4. “Tão longe da noite das primeiras eras. Nós estamos acostumados a olhar para a forma presa de um monstro, mas ali… ali você poderia olhar para uma coisa monstruosa e livre.”
  5. “Aquele sorriso está marcado para sempre na parte de dentro de minhas pálpebras.”
  6. “Os fatos têm todo o tempo que o universo permite.”
  7. “O amor está observando alguém morrer.”

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comentários
  1. Me senti como você, lendo este livro maravilhoso. Você colocou em palavras tudo o que eu não conseguia quando escrevi a resenha deste livro para meu blog. É difícil não se envolver com a história, com os personagens, com os elementos que percorrem cada página, cada pensamento da Imp. Sem dúvidas, como você disse, é um livro de palavras bonitas, que não são apenas alegorias, mas encantamentos, e da melhor qualidade.
    Lindas suas palavras para descrever a leitura, adorei a resenha.
    Um abraço,

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