Este Conto é um Presente de Aniversário que espera um Título

Publicado: julho 15, 2014 em Contos
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Desejava aquelas coisas que o destruiriam no final porque carregava a morte em seu bolso esquerdo. Alguém o chamou de Som e assim ficou. Quando pisava em um recinto, rasgava o silêncio e da ordem das coisas, instalava o caos. Som, homem alto e gordo, com as unhas puídas por uma ansiedade singular. ‘Esta é a sua morte’, falava para uma criança assustada que corria com a caixinha mortal na mão, fugindo do morrer e tropeçando no elástico que antes brincava, sufocando-se e antecipando uma morte que só aconteceria 3 dias além. Ou ao velho que ficou sentado com a caixa em seu colo por uma semana, esperando um ceifador que nunca apareceu, desperdiçando sete dias de cerveja e pães caseiros.

Ninguém estava acostumado em receber uma caixa com tempo específico de vida. Ninguém sabia lidar com o relógio do tempo. Quando Som atravessou a rua de asfalto e bateu na casa com os sapatos arrumados por cor na porta, uma moça com jeito de lua o atendeu.

‘Trouxe a morte para ele.’

‘Pode me entregar.’

Som coçou a cabeça e olhou para o corpo miúdo de alguém que parecia não entender o que ele dizia.

‘Eu disse a morte”, Som retrucou.

‘E eu disse sim, pode me entregar.’

Era gentil a moça, com aquele olhar simpático de quem entende sem fazer esforço.

‘Essa é a caixa do tempo, né?’ – ela perguntou.

Som afirmou com a cabeça.

‘Posso gastar meus instantes com você,’ ela disse.

‘Como sabe que serão instantes?’

‘Pela forma como anda. Se fosse um resto de vida cheia, você estaria arrastando a caixa, não segurando com os dedos.’

Som obedecia as palavras dos humanos, mas aquela era a primeira vez que não queria despedaçar uma vida. Os olhos dela brilhavam um preto com luz em fim de túnel. Ele sentiu o perfume que ela tinha colocado atrás da orelha e percebeu que o brinco que balançava com aquela brisa em fim de existência tinha o formato de uma folha.

‘Coragem, coração’ – ela sussurrou ao Som.

Ele quis correr, se esconder em saídas de emergência de prédios comerciais, agachar-se em lojas de departamento com promoção, mas o que o Som fez naquele dia foi a mesma coisa que fez em todos os outros. Entregou a caixa.

E a moça, como toda moça de vida interessante, fez a única coisa que o tempo a permitiu fazer: segurou a mão de unhas puídas, piscando seus últimos instantes olhando para ele e sorriu. E o Som, depois disso, sempre sorria quando entregava a caixa para alguém.

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