Neufeld

Publicado: abril 3, 2014 em Contos

Foi o último garoto sensível que conheceu. Tocava piano no inverno, nas noites onde procurava trovões pra acalmar o tanto de coisa que fingia não sentir. Às vezes colocava o rosto perto das teclas pra experimentar os sons. Não se dava bem com os próprios pensamentos, então precisava produzir. Ruídos, melodias, vibrações.

Ela o observava pela janela, atraída pelas notas que atravessavam a cidade e paravam bem em frente ao vidro da sala. Ficava parada horas no invisível, ouvindo-o errar e acertar as canções da vida dos outros.

O moço que tocava piano tinha aquele dom de colecionador. Coletou a batida do coração da menina que se perdeu na estação do metrô em um dia de segunda, a respiração do senhor que lhe dava o troco de uma água, a gota de suor de alguém que andava na praia, o pedaço de minha alma que vagava enquanto eu zapeava a TV. E os dedos dela que tocavam na parte de alumínio da janela, mas que ele não percebia porque no frio ninguém olha pras mãos das pessoas.

Mas nós olhávamos pras mãos dele. Uma linha de vida torta, formatos de losangos na palma, unhas ruídas porque todo mundo traz um tanto de ansiedade não querida. Dedos flexíveis que corriam pelas teclas. Nunca achei que diria isso. Mas eu e ela concordamos. Eram bonitas as teclas. Quando ele as tocava, algumas brilhavam azuis.

Foi em um dia claro que ele preencheu a vida. Horas e horas desperdiçadas no trânsito, nas conversas triviais diárias, no tanto de poder monetário que circulava na sociedade. Ela foi a única que persistiu por mais de cinco estações. Ficava lá, vendo aumentar a poeira das teclas e as pausas que não eram mais respirações coletadas, mas silêncio corrido.

Cada um de nós voltou para seu tempo monocromático. Vez ou outra encontro com ela. Pergunto se ainda passa por lá. “Às vezes”, me responde. “Por quê?” – indago. “Porque ele nunca me devolveu o pedaço que faltava.”

Ele era assim, às vezes pegava uma coisa da gente e deixava pendurada em uma música. “Tadinha”, pensei. Estava presa dentro do talento de outro.

tumblr_mctid7bDhR1rap6sjo1_500_large-3774

Anúncios
comentários
  1. Desireé Vila Verde disse:

    Essa mania de escrever coisa bonita e fazer gente sensível chorar…

    Deixa guardado um abraço pra mim, tá? Esse texto me deixou com vontade.

    🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s