O deus do silêncio

Publicado: março 24, 2014 em Contos
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O 35º deus do silêncio a botar os pés sobre a terra de Ár Var não sabia que o tempo era dividido em séculos. Nem tampouco tinha ideia de que a lua estaria crescente se olhasse para cima. Quando ele se apoiou à árvore onde aquele garoto evocava uma prece, ele não tinha nada mais do que dormência nos dedos. Era essa a sensação de finitude humana. Um tipo de leve dor constante onde se prova que o corpo é matéria que finda e nada mais.

O garoto lhe implorava ausência de ruídos. Arranque as palavras de mim. Corte-me os pensamentos. Por favor, silêncio. Conceda-me sossego. Chegue mais perto.

Pedia a primeira força do sol do inverno aquele humano destoado.

Suas inquietações não tinham tanto poder, mas o tanto de barulho que vinha de dentro dele parecia espremer as pupilas do deus.

Foi quando o vento do norte balançou as tranças da divindade que o garoto percebeu que já não estava mais sozinho. Abriu os olhos e viu a figura divina o encarando. Piscava esperando interpretação. O coração acelerado como se presença fosse alerta e desespero. Já o deus não sabia o que era piscar. Tinha um corpo há menos de dez minutos.

Enquanto os segundos rodeavam as duas criaturas e o vento do norte balançava folhas e trevos, os olhos do deus se encheram de lágrimas. Era essa a tentativa de limpar a córnea o que o corpo lhe respondia.

Mas para os habitantes de Ár Var, só os seres mais baixos entravam em prantos. E era pranto o que o coração daquele garoto interpretava. E pranto era sinônimo de fim e ameaça.

Antes mesmo de o deus atender qualquer um dos pedidos que ainda estavam no ar, o garoto tirou de suas sandálias uma pequena faca e com um golpe ligeiro arrancou uma mão do deus. Foi aí que o 35º piscou. Era veloz e destro o pequeno. O deus nada mais era do que uma vibração que não reagia. O garoto furou o peito divino, cortou um pedaço da perna, arrancou uma orelha e lhe implorou para que se identificasse.

O deus nada disse, mas com a única mão que lhe restava pediu que o garoto chegasse mais perto. E humanos sempre obedeciam a divindades, mesmo que não soubessem o que eram elas.

O garoto deu dois passos em direção próxima. Era denso o ar da mudança. Ofegou quando o deus do silêncio segurou seu dedo indicador e colocou sobre a boca. Congelou o gesto até que a lua sumiu e o vento desapareceu.

Só o coração do garoto batia porque só ele estava vivo ali. Foi nesse dia que todas as pessoas de Ár Var sumiram. Nenhum barulho, nenhum ruído. Por favor, silêncio.

Deuses sempre ouviam.

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