Guida

Publicado: março 14, 2014 em Contos
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Encontrou a carta da filha morta numa quinta-feira. Sabia que há muito tempo não escrevia não por falta de inspiração, mas porque era um escritor baseado em experiências. E eram das experiências que ele fugia.

Tocou na tinta pensando que ela poderia ter sem querer tocado também. Lembrou dela pequenininha perguntando quando ele morreria. “Quando você estiver bem cheia de rugas.” Mas esqueceu que avida também troca ciclos e muitas vezes o que é depois vem antes.

Esticou o papel quando o vento soprou o filtro dos sonhos.

“Querido Universo ou Coisa que não existe,
Pfvr, uma vida mais sossegada, que me acrescente ao invés de diluir. Que me rodeie de liberdade, mas que tb me recheie de afeto. Que seja além. Simples. Inteira. Com emoção.”

Ele nunca chegou a vê-la bêbada. Nem sabia que às vezes tragava pontas só pra se sentir tonta. Mas sempre que ele fazia essas duas coisas, parecia lê-la de novo, como se estivesse dentro de seu pensamento, repetindo e sussurrando sons que se transformariam em palavras daquele papel. E dali até o momento de sua última gota de existência, ele se perguntaria em momentos de dúvida: ‘Esse caminho tem coração?’

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