Sobre deuses e nós

Publicado: outubro 7, 2013 em Contos

Andei horas até encontrá-lo sentado ao pé do morro brincando com meu isqueiro.

“Acabou o gás”, me disse. “Devolve assim mesmo. É meu preferido,” rebati.
Tinha aquela barba branca que ia até os joelhos doídos e mãos cheirando a alfazema porque era assim que eu o imaginava. Tempo, dono do mundo, velho de alcovas, a Existência que por nós passa.

“Tá vendo ali?” “Sim.” O Tempo matava alguém. “Você começou a criar estrelas para os mortos?” “Sim,” ele me disse. “Ninguém presta atenção nisso.” “Como sabe?” “Passei a vida em contato com os mortos. Tinha que ir às catacumbas. Ninguém olha pra cima.”

O Tempo tinha olhos caídos. Acho que de todos, foi o que vi morrer mais vezes. E sempre que esbarrava em mim deixava um pouco de sua saudade mexida. “Vou te dar cinco minutos a mais, ok?” “Tá, tudo bem.”

Sempre achei que o Tempo era um fantasma. Quando eu precisava dele me roubava um objeto, aí aparecia do nada e ficávamos sentados olhando para quem ele matava porque divindades gostavam de sopro e dor. Era legal, mas nunca entendi sua fixação em querer me dar mais horas de vida.

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comentários
  1. monique disse:

    ai Hanny, que coisa hein.
    Parece até que o tempo ganhou cara e voz.
    continue….

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