Publicado: março 6, 2013 em Das coisas que se aprende
Banksy

Banksy

Que tipo de artista você é? (Ou a necessidade que as pessoas têm de definições – ou quem sabe estou matando toda a minha articidade*)

Certa vez um amigo me disse que eu tinha que me afirmar mais como artista, que deveria chegar nos lugares e dizer: “Oi, meu nome é zebra e eu escrevo em preto e branco”. Outro me mandou email dia desses com dicas de como trabalhar em meu marketing pessoal. Outro que se eu voltasse pro Facebook venderia mais livros (até hoje nenhum). Outro que eu deveria ler todos os manuais de sucesso “Como ser um bom escritor”… ali estava a chave pro caminho do reconhecimento. Outro que eu deveria dar para todos os outros escritores. Essa coisa de networking era muito importante (arrã, sei). O que eu mais encontrei foi um bando de gente com fórmulas. Mas nenhum, nenhum me disse como era essa tal coisa de ser artista.

Demorei tempos para me apresentar “Oi, sim, meu nome é Esquilo e eu sou autora desse livro”. 1 eu ainda acho que autores são meros coadjuvantes de suas estórias e 2 já quis ser tanta coisa nessa vida que essa auto definição me gera um tipo de enclausuramento. Como se eu não pudesse ser nada além do que aquilo. (Eu já quis ser dançarina aos 9 anos, atriz aos 12, cineasta aos 18 e escrever aos 26. Aos 40 terei uma banda de rock? Como poderia ser apenas uma coisa?)

A verdade é que passei por todas essas posições e percebo que gosto de tudo. Poderia fotografar pela manhã, desafinar meu violão pela tarde e cantar pela noite. Nada disso mudaria minha posição de observadora no mundo.

Eu vim aqui dizer publicamente que não sou escritora. Me tirem esse peso dos ombros. Sim, eu escrevi uns livros por aí porque gosto de contar estória e porque adoro diálogos. Sim, eu vejo personagens, mas isso me parece mais alucinação do que talento. Tenho intimidade com palavras porque sou introspectiva. Talvez se no auge da minha adolescência eu tivesse acesso a instrumentos musicais do que a livros eu teria uma harpa hoje em dia.

Quando alguém diz “Olha, ela é escritora” tenho vontade de sair correndo que nem cachorro doido. (“Arrã, agora que você sabe, posso ir embora?”)

Já cansei de ouvir que preciso me definir. Mas qual seria o propósito disso tudo?

Me defino e parece que estou sendo enforcada com rótulo de produto. Passo a responder “E aí, tá vendendo muito?” com uma mentira branca, começo a me preocupar com minha imagem pessoal e todo lugar que vou ao invés de experimentar só estar, levo um livro e digo “Oi, eu tenho um livro, me compra?” Qual a graça disso, pelo amor de Deus?

Não sou diferente de você. Qualquer um pode fazer arte. É terapêutico, faz bem pros olhos e está ao alcance de todos. Está no lugar comum. Ninguém precisa ter super poder, nem receita mágica nem sair por aí cuspindo que faz X Y ou W. Todo mundo tem direito de criar.

Somos um estado de coisas. Eu faço algumas que podem sensibilizar alguns, enjoar outros. Mas são só coisas. Coisas que observo, coleto e passo adiante. Você pode fazer isso também. Qualquer um pode fazer. Talvez se as pessoas soubessem que podem fazer qualquer coisa, o mundo seria menos violento.

Você pode pintar um muro, grafitar que ama MARIA ELIZABETE, colar papéis pelos orelhões e chamar de arte urbana. Você pode fazer isso. Tira esse peso de especial dos meus ombros. Eu nem mesmo sou popular, não me venha colocar num lugar onde não estou.

Sim, isso é um desabafo. (Quando alguém me mandar de novo trezentos e-mails eu colo o link pra esse post e ficamos por isso mesmo)

Certa vez li uma entrevista de Clarice Lispector que define exatamente como me sinto:

“Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo, consigo mesmo de escrever. Ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu faço questão de não ser uma profissional… para manter minha liberdade.”

– Em que medida o trabalho de Clarice Lispector (…) pode alterar a ordem das coisas?
Não altera em nada… Não altera em nada… Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera nada.

– Então por que continuar escrevendo, Clarice?
E eu sei? Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro, não é?

– No seu entender, qual é o papel do escritor brasileiro hoje em dia?
De falar o menos possível.

– Normalmente, que tipo de problema Clarice Lispector escritora traz a você?
Às vezes o fato de me considerar escritora me isola…

– Por qual razão?
Me põe um rótulo.

– E você acredita que as pessoas olham para você através desse rótulo?
Às vezes através desse rótulo. Tudo o que eu digo, a maior bobagem, então é considerada como uma coisa linda ou uma coisa boba, tudo na base de ser escritora. É por isso que não ligo muito para essa coisa de ser escritora e dar entrevistas e tudo. É porque eu não sou isso…

(…)

– Mas você não renasce e se renova a cada trabalho novo?
Bom, agora eu morri… Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta… Estou falando do meu túmulo.

Me interessa muito mais o ato da criação do que saber onde o mercado está. Me interessa mais conversar sobre o processo da criação e todas as coisas que nosso cérebro pode produzir do que saber que não ganhei dinheiro com isso. Sou movida a experimentações. Ao incerto. Ao acaso. Aquilo que não está em fórmulas.

Se as experimentações dão certo ou errado, não me importa. Sabe aquele segundo onde você pensa “Uau, é aqui que estou e é legal estar?” É só isso que me apetece.

Sou egoísta. Escrevo pra me satisfazer. Tiro foto de céu porque gosto de tonalidades. Quero estar onde tem música porque me agrada som e silêncio. Roubo diálogo de pessoas nas ruas. Vejo a vida com olho de cinema. Copio e colo que nem Banksy. Não sou artista. Eu fujo de responsabilidades.

*articidade: estado de estar imerso em arte dentro de uma cidade.(acabei de inventar a palavra e definição)
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comentários
  1. Rafaela disse:

    As pessoas criam expectativas. E muitas vezes sucumbimos a pressão… Bom mesmo é se libertar e ser quem a gente quer, do jeito que a gente quer… Difícil, viu?

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