Substantivo masculino singular

Publicado: setembro 7, 2012 em Contos
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ELE apontou o dedo e pediu carona. Nenhum carro passou e ELE caminhou uns dois quilômetros até encontrar um filhote de passarinho esmigalhado por alguma roda. Então lavou os restos mortais com a água de seu cantil e ingeriu o animal. Cru era o nome de uma marca de roupa, uma banda de heavy metal e o monte de comida japonesa que já passara entre seus dedos.

Aquele animalzinho era nada. ELE só precisava aterrar. Ajudaria por algum tempo.

Por volta das duas da tarde da estação primaveril um carro preto parou e a porta lhe foi oferecida. ELE se abaixou e sorriu sem tirar os óculos escuros.

– Destino?  – o  motorista perguntou.

– Meu Perpétuo preferido – ELE respondeu.

– Quem navega no mar sempre encontra um lugar pra ficar.

– Quando eu olhei o céu, pensei “E se há”.

Os dois homens passaram a viagem dividindo gostos. Tinham em comum quadrinhos, a banda Bonsucesso Samba Clube, gosto por Trident Global London e Soda limonada. A minoria sempre se entende.

Por volta do entardecer o motorista deu uma parada pra mijar. Sol caindo, estrela surgindo, céu de lua grande. ELE encostou no capô do carro e esperou seu condutor.

– Vamos? – o motorista perguntou.

– Minha vez de dirigir – ELE respondeu.

O motorista sorriu. Confiança. O ponto fraco humano.

ELE sentou-se no banco do carona e o motorista franziu a testa. ELE sorriu e tirou os óculos. Aí o motorista viu que ELE estava com os olhos vermelhos e que dos olhos tripas caíam.

Nunca ficava muito tempo dentro dele pedaços de ave.

– Desculpe, não sou vegetariano – ELE disse.

O motorista não teve tempo de arregalar os olhos. Isso seria cinematográfico. O condutor engasgou enquanto ELE enrolava as tripas em seu rosto e chupava-lhe todo o sangue do corpo. Arterial, não venoso.

Fazia com classe porque tinha gostado do estofado daquele veículo. O motorista se debateu um pouquinho, mas nada exagerado. ELE empurrou com o pé o corpo morto para fora do carro e ajeitou o retrovisor.

Adorava essas histórias de que criaturas sanguinárias nunca andavam de dia. Também gostava de pessoas estranhas e excluídas da sociedade. Tinha cheiro de viajante.

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