O dia que Manoel tirou aquela lesão de meu bulbo raquidiano

Publicado: setembro 2, 2012 em Contos
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Hoje acordei com sono e não pensei em você. Pensei no azul e em Manoel. Sentado abaixo do carvalho-roble, ouvindo Cat Power no aparelho de música portátil. Ele era um pouco cínico, mas adorava imitar o som da bateria. A genialidade inventada pela memória. Só consigo recordar do movimento de seus dedos. O lembrar ativado pelo gemido de Charlyn Marie Marshall.

Desde então não ouço músicas tristes. Não, não. Guardo isso em caixas mentais. Separadas só quando a lua fica azul. Aí abro cada uma e como uma folha caduca pertencente à família Fagaceae atinjo 30 ou 40 metros de saudade em copa redonda. Um tempo de vida entre 500 e 1000 anos.

Você já viu uma casca lisa e acinzentada? Verde forte ao longo do Outono antes de se tornar castanha no Inverno? Chama-se emoção humana. Experiência subjetiva, associada a nosso temperamento, personalidade e motivação. James-Lange uma vez disse que as experiências emocionais são consequência de alterações corporais.

Foi  no domingo que Manoel pintou-me de azul. Não chovia. Disse que eu teria um coração metálico se não parasse de comer berinjela. Queria provar que eu precisava mais de milk-shake de Nutella. Não sei em que parte do dia aquilo me mudou, nem mesmo posso lhe garantir a que horas aconteceu, mas de repente, pum, lá estava eu, repleto de palavras dele, colocadas em mim em balões de frase. Todas azuis.

– Não precisa se esconder de mim – ele pronunciou.

Naquele tempo eu não sabia que a gente podia conversar com a gente mesmo, então olhei pra trás pra ver se havia uma terceira pessoa.

E Manoel, com sua linha de destino, localizou-me. Dor: sensação desagradável que varia de desconforto leve a aflitivo, associado a um processo destrutivo.  Falta de ar (ou dispneia): sensação de respiração incompleta. Sintoma comum a um grande número de doenças, em especial na área de cardiologia.

Deve ter sido a cor azul ou aquela mistura de coisas que eu não sabia definir, mas ao olhar para onde ele mexia, pude ver que com a mão direita ele sacudia o que podia me explodir e com a outra imprimia sobre minha palma uma linha de vida que eu desconhecia. Quando o ar voltou sobre meus pulmões, achei estranho ver tanta coisa solta. E ele, com olhos miúdos de poeta, me disse:

– Te concedo uma vida de imaginação.

E foi ali que descobri que nunca teria conexões com o real.

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