Incendere

Publicado: julho 3, 2012 em Contos

Ele era o moço que me dava incensos. Dizia que sabia escolher plantas aromáticas. Eu ia na loja e ele me pagava para experimentá-los. A verdade é que tudo parece melhor desde que ele começou com sua colheita sobre mim. Devo ser algum projeto de vida dele. Desses que a gente escolhe pra salvar e chamar de seu.

Ele me entrega com regularidade uma fragrância pra cada porção de dia.

– Queima indireta ou queima direta?

– Incenso não-combustível, por favor.

– Eu experimentaria essa semana o combustível. Para criação de um estado de espírito.

Dava para perceber pelas barbichas que era um homem sábio.

– Te dou 10 se você conseguir sustentar o estado de espírito criado por mais de três dias, ele me propôs.

– Desafio aceito, respondi.

O espírito apareceu lá em casa depois da metade da queima da vareta. Tudo iluminou. Meus vizinhos ficaram dizendo por aí que eu tinha recebido santo. Mas eu estava muito bem sã de mim mesma, já o espírito adorava minhas panelas. Acredito que era algum tipo de roqueiro rebelde. A verdade é que aprendi várias coisas com ele, desde a escolha de palhetas até afinação de instrumento. No fim do segundo dia, os vizinhos chamaram a polícia porque se diziam tolerantes a religião, mas aquilo passava do horário da lei do silêncio.

O moço dos incensos sorriu quando apareci na loja com a cara de que havia perdido. Ele me deu um tapinha nas costas e disse que ninguém tinha ficado com um espírito por mais de 15 horas. Eu merecia uma cerveja.

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