“Long De Chuan Ren”

Publicado: junho 13, 2012 em Contos
Tags:

Abri os olhos às 5 e 30 da manhã. Era escura a tonalidade do céu. Fiquei meia hora cheirando o lençol pra ver se o acordar passava. Grudou em mim feito carrapicho.

A primeira coisa que coloquei sobre o chão foram meus pés. Minha avó sempre me disse que eu morreria em choque por acordar e já tocar o chão descalço e toda vez que isso acontece penso na possibilidade de meu último minuto de respiração ser em vão. Às vezes acho que fico de sacanagem com o destino, só pra ver se ele acontece mesmo. Mas logo passa.

Fui à cozinha e abri a porta da geladeira. Um pedaço de gelo caiu no piso. Eu tinha que limpar o congelador, mas preguiça era algo muito autossustentável na casa. Me abaixei pra pegar aquele pedaço sólido de água quando vi uma fumaça debaixo das pernas de meu refrigerador. Pensei em curto-circuito, “mas é cedo demais”, repensei. Como se defeitos não acontecessem antes das nove. Respirei fundo esperando a geladeira explodir bem na minha cara. Como resposta vi uma íris grande com pupila vertical curiosamente observar minhas mãos irem de encontro a meu rosto.

Pesadas escamas cobriam o corpo desde a ponta da cauda até a extremidade do focinho. Ele era um dragão robusto. Desses de cor cinzenta e marrom. Cada uma das patas possuía cinco garras. Era muito pior do que um acidente doméstico.

– Cuide bem do seu dragão, ouvi uma voz atrás de mim.

Não sei qual susto era pior do que o outro. Aquilo não era um início de dia agradável.

Um homem esguio estava parado entre o basculante e a pia, espremido entre a lixeira e o fogão. Tinha uma pele chamuscada e olhos claros em contraste com a cor de seu rosto.

– Talvez você precise de alguns insetos para alimentá-lo.

O que eu tinha ali, um dragão vegetariano?

– Talvez daqui alguns anos uns porcos selvagens.

De onde ele tirara a ideia de que eu tinha dinheiro para sustentar um dragão?

– Mas definitivamente ele não será um adulto agressivo, senão você já teria os dedos calmamente devorados.

– Obrigado, eu disse. Eu sempre falava obrigado quando não sabia o que falar.

A criatura fez a dança dos dragões nos meus pés nus. Como lembrei de minha avó naquela hora, me arrependendo amargamente por não ter chinelos. Era uma mistura de gelado e quente na ponta de minhas articulações. Quase pequenos choques. Como eu queria que a geladeira tivesse provocado um incêndio ao invés daquilo.

– Então é isso, o homem esguio disse, abrindo o basculante e se esgueirando para passar por ali – boa sorte.

– Obrigado, retruquei perplexo vendo aquele homem daquela estatura simplesmente desaparecer como se janelas fossem coisas fáceis de se tirar do caminho.

Levei a mão em meus cabelos desgrenhados quando o bicho voltou pra debaixo do eletrodoméstico mais caro de minha casa. Eu estava fodido. O que faria com um dragão na cozinha?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s