O lugar de Dóris

Publicado: maio 19, 2012 em Contos

Era coisa da Dóris. Aquela menininha de vestido listrado que andava com passos largos pelo chão da locadora. Que dava a volta pela sessão de infantis para poder alcançar o bolo de maçã com canela e fazer rodelas no chão daquele ambiente de trabalho.

Só eu notava que a pequena era uma buraqueira.

Às vezes me pergunto como pode uma menininha de cabelos lisos desses de fita de filme francês ter uma força tão grande quanto britadeira. Ela nunca precisou gritar nem espernear. Começava pelo pé com aquelas sapatilhas de boneca que por questão de brilho tinha um eco que ia da ponta da locadora até o banheiro.

Eu costumava dizer Psiu, menos. Mas ela não era uma pessoinha de regras. Parecia sorrir pra mim toda vez que eu pedia silêncio. Respondia com uma pisada mais forte como se sua felicidade fosse um vidro muito bem do limpo e o sapato dela fosse um aparelho polidor. Com ela perto eu tinha a impressão de que poderia achar qualquer coisa em qualquer pedaço de piso levantado, presa naqueles balões que só cachorros perseguem.

– Vá abrir buracos na casa da tua mãe! – tinha uma hora que eu exclamava com a vassoura em uma mão e a outra em meu cabelo metade branco metade cinza.

Mas ela gargalhava e acabava com mais um pedaço do piso, como se chão em espiral fosse mágico.

– Silêncio é um mundo parado, ela dizia.

Naquele dia de semana ela estava mais agitada, acho que a mãe havia lhe cortado os cabelos. Sei que quando ouvi o barulho a prateleira da sessão de clássicos de suspense já tinha despencado. Quando eu estava pronto pra falar exclamações e símbolos que representavam minha ira de dono de loja, as palavras ficaram engasgadas.

Um segundo barulho fez com que eu percebesse que meu corpo estava equilibrado em um único piso que por milagre não se despedaçou. E Dóris estava suspensa. Aquela menininha não estava assustada nem impressionada, mas suas sapatilhas bailavam no ar. A filha da mãe flutuava com um sorriso maroto, desses que dá vontade de matar.

– Ops, eu acho que o chão caiu.

Mandei a conta pra mãe. Certos clientes abusam demais.

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