A moça e as coisas

Publicado: maio 16, 2012 em Contos

– Gosto muito de você, mas sinto muito.

E foi assim que ela cortou minha mão, ao som de Patti Smith. Era esse som que queria ter ouvido se tivéssemos eletricidade por perto. É muito estranho ouvir seu próprio membro sendo decepado. Eu deveria ter gritado, era isso que ela esperava, mas meus olhos ficaram cheios de nada. Vazio como se a dor estivesse presa em meus cabelos.

– Ben, você está me ouvindo?

Ela tinha as mãos cheias de líquido espesso. Colocou rapidamente o pedaço da minha parte esquerda dentro de uma sacola suja. A arma que tinha usado era afiada.

– Você irá sobreviver. Só temos que encontrar um jeito de sair daqui.

Benjamin Cant. Olheiras na face há sete dias sem dormir.  A moça. Era só a moça. Engoli seco, quando olhasse pra parte que faltava a dor viria em triplo.

– Não poderei mais tocar.

Quando olhei, eu já não tinha mais dedos e o que era braço parecia um pano surrado meio roxo meio cor de podridão.

– Ainda não senti a dor.

– O quê? – ela me perguntou coçando sua sobrancelha.

– Ainda não dói.

– Talvez seu cérebro esteja um pouco sem oxigênio. A dor virá.

Olhamos ambos para o céu. As pedras ao redor de nós pareciam nos proteger como uma pequena cabana perdida no além.

– E se ela não vier?

– Quer dizer que você irá morrer em breve.

– Desculpa por isso. Não deveria ter te trazido.

– Breve é um futuro que ainda não existe.

A dor veio. Em flashes. Eu vi a moça lutar contra as coisas que insistiam em querer devorá-la viva. Eu não me mexia. A dor era grande. Dessas que ficam presas demais nos cabelos. Eu a vi tentando se autodefender enquanto estava eu com imagens tremidas no cérebro. Ela enfiou a arma afiada na parte de trás da coisa que insistia em devorá-la. A coisa cambaleou por um instante, mas mordeu o braço que havia levantado e partiu em dois a coxa que havia ficado atrás. A moça uivou. Eu  estava preso na dor.

Depois a coisa triturou seus pés com seus ossos internos e esmagou o crânio que havia me ajudado na manhã anterior. A coisa chamou outras coisas e o corpo da moça foi arrastado para atrás da pedra. Eu, vivo, pensava no tempo da dor. Breve, eu insistia em dizer pra mim mesmo. Mas breve era um futuro que ainda não existia.

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comentários
  1. ilhademocambique disse:

    “Breve é um futuro que ainda não existe.” Você já usou isso em outro lugar, não? Parece-me tão familiar…!

  2. hannysaraiva disse:

    Acho que vc está confundindo com “Longe é um lugar que não existe”, que é o nome de um livro. rs

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