Eu, você, o menino morto e a menina viva

Publicado: fevereiro 12, 2012 em Contos

No dia que o menino morto encontrou a menina viva, eu estava dançando com você. Você estava no meu colo, grudado como macaco de desenho animado. Foi  nesse dia que ele disse pra ela que alma gêmea era uma coisa entre mundos. E os dois ficaram sentados encostados naquela parede branca que eu te medi pela primeira vez quando você ainda batia no meu joelho. O menino morto e a menina viva conversaram por telefones sem fio, feitos daquelas latas prateadas que hoje em dia se vende em loja cara de produto antigo. Eles contavam quantos pontos tinham as ilustrações dos azulejos e encontraram um azulejo que estava ao contrário, perdido no meio da cor creme e marrom.

Você nunca chorava aos sábados, talvez porque soubesse que nos domingos eles pensavam um no outro, ele do lado de lá e ela do lado de cá. Às vezes eu lia um livro e você soltava uma risadinha. Às vezes a gente até sentava nos degraus que eles escolheram para olhar a fase da lua e você se arrastava pelo chão como se chão fosse apenas tapete e azul.

O menino morto pedia pra menina viva dobrar a beirada das cortinas porque isso o lembrava de como era tocar tecido e ela com seus dedos de anéis de plástico passava a ponta do anelar como se dobradura fosse toque de seda. Ele ria, lá das partes invisíveis do limbo e ela estreitava os olhos porque quando ele fazia isso ela sentia aquela pequena luz no fundo do túnel que tanta gente diz que existe além.

Você tinha cheiro de sobrancelha penteada e quando ria era evidente seu furinho no queixo. O menino morto tinha dias a menos e a menina viva dias a mais. A gente não sabia o que era tempo contado. E foi só quando a sua pele ficou com aquele tom roxo de coração mole que eu percebi que nunca mais saberia  do menino morto porque a menina viva tinha cortado o barbante do telefone sem fio pra saber o que acontecia com a mensagem ao passar de um lado para o outro. E hoje, quando penso que um dia você colocou o dedo no meu umbigo sem saber que era de lá o início do nosso mundo, penso que talvez de leve tudo possa passar.

Eu entreguei a vida (um novelo de lã puída) pelo correio. A menina viva às vezes dorme no assoalho esperando notícias dessas que estalam corações. O menino morto. Bem, ele realmente desapareceu. Talvez, no meio de todas as possibilidades arquitetadas em gráficos e planilhas, penas e regras entre portais, ele tenha ido com você.

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