72,8% de água + som e fúria

Publicado: janeiro 9, 2012 em Contos

Ele estava no topo de uma torre feita de pedras grandes, encaixadas por aqueles que acreditavam em deuses pagãos e entidades primitivas. Tinha 72,8% de água em sua constituição física.

Phillip Diaz podia usar espada, punhal ou machadinha, mas seu projeto pessoal era uma luva com agulhas na ponta dos dedos, feita de gordura dos Simérios, só encontrada no interior das florestas úmidas. Móvel e resistente, material perfeito para encontrar o corpo de uma criatura gelada.

Se ele morresse, morreria no lugar onde ninguém soubesse o nome dele. Então foi pra lá que o décimo quarto ou milésimo homem intitulado Senhor da Vida e Morte foi. Pra região do Corte. Pro lugar onde os homens dobram Destino. Pro local onde as profecias foram esquecidas e o respeito pelos corpos transferido para um grande manual de sobrevivência. Lá os corpos eram comidos por humanos. Lá o sangue era bebido para aquecer vida. Lá ninguém dormia de olhos relaxados.

Há tempos os profetas estavam mortos e os deuses presos. Há tempos as criaturas geladas caminhavam. Há tempos que o mundo continuava tão belo quanto no início dos tempos. Há tempos que alguns seres humanos estavam espalhados naquela zona, lutando por sopro de existência. Phillip Diaz sabia que alguns chamavam as criaturas geladas de Pessoas de Cristal, mas ele não. Cristal era translúcido e pessoas eram obscuras. As criaturas geladas eram apenas morte.

Ele sabia porque ele também cheirava a morte. Na verdade, Phillip Diaz só vivia por causa de sua função no mundo. O que ele seria se não fosse hábil em reconhecer trevas? O que ele seria se não soubesse dissipar sombras? “Queime minhas sombras”, algumas pessoas diziam quando ele aparecia em determinado amanhã.

Entre luz ou escuridão, as pessoas não sumiam totalmente, ficavam ali, dependuradas em estado de consciência enquanto ele levava embora o que quer que ainda sobrava. Muitas vezes o que o Senhor da Vida e Morte retirava da região do Corte era apena corpo vivo de alma estraçalhada, gente que sabia reconhecer os diversos tipos de vento que assustavam desavisados, mas que não conseguia viver fora de grutas e lugares apertados. As criaturas geladas não assustavam mais quem quer que ainda existisse. Um encontro com elas era apenas sinônimo de fim de vida.

Mas Phillip Diaz não era um sobrevivente nem contador de estórias. Ele era o Senhor da Vida e Morte, aquele que há muito tempo esquecera o que era medo. Quando a primeira criatura gelada apareceu na ponta de um riacho, ele se preparou. Os olhos perspicazes estavam atentos a todo o movimento. Conhecer do alto era sua especialidade. A criatura gelada era ágil, então ele precisava do dobro de atenção. Talvez o triplo de precisão.

Quando ele pulou do alto da torre quem pudesse olhar veria um mergulho no ar, como se toda a pressão atmosférica estivesse dando passagem para uma bala humana. A criatura gelada havia se movimentado um centímetro quando a luva de agulhas entrou por sua cabeça e a perfurou. Depois ele atingiu os pés e toda a superfície do corpo da criatura. Era preciso força porque era uma couraça dura, mas o material dos Simérios era o material perfeito. Três golpes e ela se espatifou. Antes mesmo de Phillip Diaz olhar para os lados, outras duas criaturas tentaram alcançá-lo, mas ele fez o mesmo ritual só que em sentido contrário. Os pés de um, a superfície do corpo de outro, as cabeças dos dois.

O Senhor da Vida e Morte ouviu os barulhos que podiam estremecer qualquer um. Mas ele não era qualquer um. Ele era aquele que ficaria no alto da torre, a estudar quem ainda estava vivo para que um dia esse alguém voltasse para casa. Ele era aquele que ouviria grito se ainda houvesse voz. Ele era lugar e solidão. O Senhor. O único que sabia matar quem fosse de Cristal ou Gelado. O único que subia à torre e uivava como se céu e espaço fossem apenas som e fúria. Sinal de que ainda estava vivo. Ele talvez som. As criaturas geladas estados de fúria.

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comentários
  1. Diaz tem o coração gelado como as criaturas. Obrigado pelo conto!

    Aproveito para dizer que mais um capítulo de Hammerblod foi postado no RPGames Brasil.

    Alem disso, até o dia 10 de fevereiro, o concurso “Barco a vapor” teve a inscrição prorrogada. É uma boa oportunidade.

    http://www.edicoessm.com.br/regulamento2012/

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