Ali

Publicado: janeiro 2, 2012 em Contos



Era noite quando a mensagem chegou. Mas foi na claridade que correu. A bota que usava não facilitava o ganho de velocidade. Agarrava nas pequenas vegetações que decoravam os caminhos. Era interessante notar que o mundo ainda era bonito. Ali nunca nevaria. Mas estava cheio de seres gelados.

Percebeu quando uma criatura gelada se aproximou. Calor atraía. Mas se não corresse talvez não soubesse o que fazer. Correr era sua forma de dizer “Estou te ouvindo”, mesmo sem saber para onde ir. Por um instante, teve um calafrio. Talvez fosse medo a melhor definição que sentia. Medo como quando vira um deles passar rente ao último lugar que estivera com ele. A criatura gelada fungava. Mas parecia ter um nariz obstruído porque errava toda vez que tentava abocanhar espaço que ela não estava mais. Era um pequeno olho escarlate que a procurava, tão vermelho como as Terras Distantes que dizia querer conhecer. Ela gostava do nome Terra de Frutas e ele preferia Terras Vermelhas.

Ali era distante. A pele de urso que usava para se proteger do pior inverno que já vira caía sobre os ombros. A morte lhe pesava. A criatura gelada usou uma das patas dianteiras para tentar esfolar o couro de sua cabeça, mas ela correu um pouco mais rápido e só o ar foi atingido.

“Estou te ouvindo, mas não sei o que faço” ela tentou com a força do pensamento transmitir para ele. Como mensagens seriam entregues com a distância que existia? Ela cheirava mal, como se usasse a mesma roupa por anos.

Foi quando avistou a grande parede de rochas. As criaturas geladas eram conhecidas por arranhar a pele de suas vítimas, lentamente como se morte por lentidão fosse técnica de tortura. Onde ou quando elas surgiram ninguém sabia dizer. Um dia elas apareceram por trás do frio e corpos foram achados.

Ela não queria usar seu lobo. Passara anos treinando o animal para vê-lo morrer daquela forma. Enquanto pudesse correr evitaria usá-lo. Mas seu instinto de sobrevivência foi ligado quando do lado leste uma outra criatura gelada surgiu. Tinha o corpo furado por balas. Alguém ainda achava que armas podiam matar. Ela podia ver que os buracos fizeram a carne apodrecer mais rapidamente. A única consequência era que ela estava mais sedenta.

Por tempos, todos achavam que as criaturas geladas precisavam se alimentar. Assim era com zumbis. Assim era com vampiros. Assim era com qualquer criatura que atacava. Mas as criaturas geladas não precisavam. Elas só deixavam os corpos listrados e alguns diziam que olhavam bem fundo nos olhos de suas vítimas quando elas faleciam. Ela não precisava conferir. Tudo estava perto demais. Perna travada e coração disparado. As garras afiadas. Por onde as criaturas geladas passavam alguma coisa era cortada.

Ela usou sua palavra preferida de feitiço preferido e ali ele apareceu. O grande lobo tinha a pele tão branca que reluzia. Seus olhos vermelhos como sangue. Tinha quase o tamanho de um pequeno cavalo. Ela achava que proteção era algo que qualquer um podia conjurar. O lobo também. Atacou como se as criaturas geladas fossem lebre. Arrancou os olhos de cada uma com a mandíbula. Cuspiu as bolas como se fossem bolas de gude engolidas por engano. Algo então aconteceu.

Do alto da parede de rochas uma criatura gelada pulou. Era muito maior do que qualquer criatura que ela já tinha visto. Tinha pés enrugados como pés de dinossauros e longos braços que pesavam por causa de suas garras. Como que em um sopro o lobo teve sua pele cortada em listras. Ela murmurou “Sinto muito” para o vento, como se ele e só ele, fosse sua testemunha ocular. A criatura gelada chegou bem rente à sua testa e ela sentiu que algo estava indo embora mais rápido do que deveria. Mas a sensação congelou quando a cabeça foi partida em três.

Deus havia perdido sua única profetisa.

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comentários
  1. E agora? O que acontecerá? Me lembrou um pouco Games of Thrones a questão das criaturas geladas. Acho que elas deveriam ter um nome. Daria mais substância para elas.

    Belíssima introdução.

  2. hannysaraiva disse:

    Pois foi inspirado!! Que bom que reparou =D Meu novo vício se chama J.R. Martin.

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