Aqui

Publicado: janeiro 1, 2012 em Contos

Oi…

Estou escrevendo depois de duas mil e doze estrelas. Do lado de fora, livre, chove.  Que nem o dia que me disse que gostava desse tipo de chuva. Ácida, pra limpar as coisas que ficam dentro do umbigo. Constante, pra lembrar que tempo é a única coisa que aqui não detemos.

Não me lembro se entrei nesse espaço em um dia par ou em dia ímpar. Mas hoje meu ombro direito dói. Só ele. Repetição. Treinei com o menino do outra ala quanto tempo aguentava ficar dependurado com um único braço. Exatos 52 minutos. Aguento meu próprio peso nem por uma hora.

Às vezes sonho com as cordas do seu violão, aquelas enferrujadas, tão perdidas quanto sua palhetas. Aqui tem um outro homem que colecionou palhetas. Mas elas acabaram como todas as coisas que esperamos e não vem.

Algumas vezes me pego cantando você. Que nem você quando procurava um tom que não era o seu. Memórias são percepções estranhas. Tem partes que não sei se inventei ou se são partes que posso classificar como composto cerebral meu. Ninguém aparece aqui há mais de dois aviões e meio. Ninguém do lado de fora, claro. Dentro, há trezentos quadrados de pessoas. Eu acho que eram aviões. Tinham barulhos de motor. Cheiro de máquinas.

Bem no alto da torre mora um menino de dedos cortados. E no meio do caminho até à subida, um outro de olhos mistos. Uns devem dizer que ele olha para onde o sol se põe, outros para onde o sol nasce. Às vezes eu acho que ele é o único daqui que olha para o meio. O meio que fica naquelas terras que a gente sonhava correr e percorrer. As terras selvagens. Você as chamava de Terras de Frutas. Eu chamava de Terras Vermelhas.

Aqui a terra é escarlate. Cor aditiva primária da luz. Lembra quando a gente colocava o rosto perto das grades e esticava a língua  para beber gotas poluídas? Às vezes faço isso, escondido. Todo mundo tem medo de contaminação, como se já não fôssemos objetos de transmissão. Todos os dias eu levo recados e trago outros. Ficam guardados na minha cabeça porque sou o único que sei usar a linguagem. Malditas palavras. Alguns devem achar que sou encantado. Mas eles não sabem que encantados estão além das florestas e que nunca, nunca seriam mensageiros.

Eu queria ser encantado. Tipo um daqueles povos das planícies, que conhecemos quando os dias eram claros. Aqui todo o tempo é cinza. São tempos grelhados como se as almas quisessem fugir dos corpos. Tempo de pós ebulição. Há árvores e árvores, grandes, médias, pequenas. Algumas correm com as pessoas. Você ia gostar de ver que depois de algum tempo as pernas alongam. Eu nunca corri porque sei que não posso ir além.

A liberdade tem abismo. Abismos e pedras pra baixo. Quando olhamos para cima, esperamos. Quando olhamos para baixo, bem… Há mais de dois aviões e meio que ninguém de fora vem aqui.

Quando alguém me futuca tentando dizer que faz algum tempo que o acordar começou me pergunto o que significa opcional. Não me lembro. Aqui não há dicionários grandes e as pessoas falam palavras diferentes. Tenho impressão que minha voz está evaporando. Queria saber como e por quê cada um está aqui, mas os únicos recados que levo são coisas que sei falar, mas que não compreendo. Estranho ter o poder de repetição. Estranho deter uma informação que não é sua.

As pessoas se entendem, mas eu não. As palavras saem perfeitas de minha boca, em qualquer tom, letra ou composição. Apesar de estar cercado de pessoas, você é a única que entende o que vou dizer. E é por essa razão que preciso muito que agarre isso com a força do pensamento. De todas as outras coisas que já te disse que não sei por que acontecem, a única que tenho certeza é que minha estadia aqui não é opcional, seja lá o que isso signifique. Você também consegue sentir?

Deus, o teu.

ou   o Senhor do Universo

ou   Aquilo antes do primitivo

ou  o Moço morto dali da  história da esquina.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s