Verbena

Publicado: dezembro 15, 2011 em Contos

As nuvens estavam amarelas no dia que Manuela encontrou um bilhete em sua cama. “Volto amanhã. Quero que leia o que não é real pra mim”.

E foi no dia seguinte que ela descobriu que: 1. a paciência deveria correr mais do que as batidas do coração; 2. as músicas tinham ritmo de sentimento em toda parte do dia e em toda parte da noite; 3. ela odiava quem havia inventado a escrita.

Treinou palavras. Treinou por tempo em passado e em tempo futuro até que o presente tivesse um embrulho com cara de comemoração de fim de ano. Treinou A comportado, treinou B envernizado, treinou vogal com direcionamento vertical. Ouviu música alta pela cozinha para que inspiração arrancasse seu cérebro por meio segundo perfeito. Passou pelo silêncio para que a ausência do som tivesse significado profundo.

Lá estava tudo como era antes. Parado que nem gelo em forma. Abriu e fechou o bilhete vezes contadas. Escreveu na parte abaixo da escrita todas as palavras inventadas que se recordava. Redobrou o papel e viu que algumas palavras se soltaram das linhas, ziguezagueando pelo ar com cara de gente que precisa de perseguição.

Manuela acompanhou as letras. Elas tinham cara de inseto voador. Pararam bem à frente da porta e ficaram pulando como se o significado também pudesse ter cor néon.

“Me desenhe um outro personagem”, era o que elas supostamente piscavam. Manuela pegou um pedaço de carvão e na parede rabiscou alguém que pudesse ter caligrafia com letras apertadas e confusas porque gostava de gente com alma tremida.

“Olá”, o personagem disse.

“Olá”, ela respondeu.

E toda vez que Manuela abria a porta de casa para saber se o dono do bilhete estava a dobrar qualquer esquina,  o personagem a cumprimentava e ela respondia. Por fios de horas, por lãs de dia, por barulhos de noite.

E quando o que não era mais real começou a cair de suas orelhas como se corpo fosse apenas armazém entupido, Manuela ouviu uma batida na porta.

– Ok, agora você pode falar comigo – o personagem disse.

Ela não falou. Abriu a porta e viu o dono do bilhete com aqueles olhos apertados de quem carrega tempo importante. E como toda coisa importante, ela se atrasou em responder como estava. Mas com um pequeno corte, da ponta da garganta à cutícula do pé Manuela se abriu. Ao invés de veias entupidas, sangue espalhado e organismo interno cheio de víscera e pulsação, o dono do bilhete viu letras com diferentes tipografias.

Ela era sua protagonista. E a estória começava assim: …

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comentários
  1. Junior disse:

    caligrafia com letras apertadas e confusas porque gostava de gente com alma tremida… Adorei isso, por que minha caligrafia é exatamente assim hehe

  2. MoniqueRodrigues disse:

    Lindo Hanny, eu adoro a estética da sua escrita.
    Parece uma leitura dos contos antigos.
    amei.
    parabéns

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