Eu conto para os dias brancos ou Isso se chama buraco na parede

Publicado: setembro 22, 2011 em Contos

Primeiro foi um pé que ele colocou na água gelada. Sabia que os dedos enrugavam para que pudéssemos agarrar coisas. E ele deixava aquela coisa toda ir. Foi um dia um pequeno Eirik. Hoje era E.

E. não perguntou o que estava acontecendo quando perdeu o controle. Nem se indagou se aquilo tudo ia mudar a forma como ele se sentia. Ali, vulnerável em meio à água que enchia seus pulmões enquanto o riacho subia, ele soube que precisava cortar os cabelos. Seu corpo atravessou de um lado a outro toda a extensão da natureza. Segredos explodiam em suas orelhas. Todas as falas de seus amigos que se sentiam sozinhos no meio da noite. Todas as falas de seus amigos que cantavam em voz e violão canções de outros sozinhos no meio da noite.

E. até tentou um WOW, WOW, WOW, mas seus cabelos estavam grandes e cobriram sua boca. Sua ternura antes mencionada como qualidade essencial humana era inútil naquele lugar. Garotos como ele só sabiam nadar em piscinas. Estavam acostumados com olhos ardidos em cloro.

Vá com calma, pensou em pedir à água. Um tempo para recuperar fôlego, mas oxigênio foi retirado de si. E. viu, sentados em cima de pequenas pedras, os dias brancos. Eram os dias onde tudo passava e ele não sabia o que era. Como se o tempo fosse uma garota em cima de uma moto sem direção. Sozinha e aflita.

E. sentiu seu ouvido esticar. A morte estaria ligada à ouvir melhor? Ele reconhecia notas musicais. Peixes eram mais musicais que golfinhos. E. sentiu suas membranas afrouxarem. A morte estaria ligada à cócegas nas costelas? Ele reconhecia rapidez. Fluidos eram matemáticos. E. sentiu uma fisgada no pé. A morte estaria ligada à quê? Ele reconhecia pensamentos mais claros. Abriu bem grande a boca. Quando achou que veria alguma luminosidade em algum túnel além, sentiu um motor girar velozmente sobre suas pernas. Onde estaria seu corpo? O que era isso de madeira que batia oco no que ele chamava de vida?

E. nunca mais morreria. A partir daquele trecho ele seria um barco. Bons ventos.

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