O livro imutável das coisas espetaculares sobre o nada

Publicado: setembro 13, 2011 em Contos

a vida em passos largos de coisas caídas.
a vida larga em passos caídos de coisas.
a vida presa,
num tanque de gás carbônico.
todas as minhas memórias e eu letras catadas em teclas confortáveis.

contar coisas. não sei quantas pintas tenho.
(james don patrick one two three)

Ele era um menino bonito. Desses que dá vontade de acompanhar o andar até que seu corpo cruze a esquina. Educado, simpático, introvertido. Tinha aqueles olhos tímidos de quem acha que fez alguma coisa que não deveria. Me perguntou como eu sabia que ele era assim. Pela forma como pisca, respondi. Pensei em dar-lhe um espelho, mas desisti quando me mostrou um emaranhado de papéis presos por grampeador.

– Estou escrevendo uma estória – me disse.
– Meninos bonitos que escrevem estórias – sorri.
– Só posso contá-la uma vez – me olhou como se isso fosse segredo templário.
– Ok.

Não pedi para ler nem para que me contasse sobre o que era. Ele piscou mais algumas vezes e olhou para esquina.

– Você não tem medo de ficar aqui sozinha?
– Você tem medo que alguém roube sua estória?

Ele tinha cheiro de papel novo. Ficamos os dois na escada olhando o nada. Como se o nada pudesse se expandir em tempo. Quando achei que ele iria embora, me beijou. Sim, ele tinha gosto de papel novo. Mas antes mesmo de abrir os olhos, colocou sobre meu colo as folhas e desceu as escadas correndo.

– O livro imutável das coisas espetaculares sobre o nada! – gritou do fim da escada.

Sorri. Ele era um menino bonito. Quando passei os olhos pela primeira frase, os pés dele ficaram mais claros. Ele me olhava como se eu fosse a única coisa viva ali presente. Fui captada pela intensidade das palavras e li calmamente, ainda esperando que ele retornasse e subisse as escadas para que pudéssemos falar sobre narrativas.

Não percebi quando o pé se foi ao ler o terceiro parágrafo. Não vi quando as mãos sumiram na décima oitava oração. Só entendi o que estava acontecendo quando vi meu nome na última linha e o que ele esperava que eu fizesse. Tirei os meus olhos da leitura e lá estavam os dele, a me mirar. Tinha olhos castanhos. Marrons, cor de terra.

Juntei então as últimas palavras que estavam escritas e li. Ele se foi. E até hoje não sei se o matei.

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