Ela que está lá fora com os velhos

Publicado: agosto 10, 2011 em Contos

Quando a cabeça do homem foi arrancada e o sangue espirrou entre rocha e poeira, ela poderia ter fechado os olhos, mas não. Murmurou nenhuma prece nem oferenda, mas um trocadilho. Estava rouca de tanto gritar por ele. Arranhar cordas vocais não revertia nenhum processo. Agora sabia disso. Linha e agulha não costuravam confiança. Ela via isso. Quando a cabeça foi posta em evidência e homens, mulheres e crianças gritaram como se a futura rouquidão pudesse trazer honra e mérito, ela baixou os olhos e pegou uma pedra. Nem tão lisa nem tão áspera. Caminhou pela parte onde os velhos estavam. Eles que eram metade sabedoria metade estupidez do tempo. Ninguém a viu passar. Invisibilidade era mantra de proteção. Havia um menino no caminho que sentiu o cheiro do seu perfume e virou a cabeça, achando que o vento trazia cheiro de lírio para aguçar sensibilidade. Ela foi no Ele Mais Velho. Não estava dormindo, mas tentando fazer fogo com duas pedras nem tão úmidas. Ela, com toda doçura e ódio de seu mundo, bateu sobre a cabeça do Ele Mais Velho por duas vezes. Ninguém se mexeu porque ninguém sabia de onde vinha o movimento. Ela era invisível, mas justa. Foi só ele e só ele que matou. Depois passou a caminhar pelo mundo com pés vistos. Com essa luz. Nessa noite.

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