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Publicado: agosto 6, 2011 em Contos

José Caspellino não tinha mais nenhum fio de cabelo castanho, mas neve. Suas mãos estavam unidas em formato de prece não porque era religioso, mas porque estava pensando. O frio que sentia na nuca, coberta por uma gola de um casaco de algodão listrado tinha esse efeito. Ele não polia seu sapato marrom há uma semana e suas meias pretas estavam russas. Todos os dias penteava as sobrancelhas brancas em frente à janela do trem matutino e dava dois tapinhas nas bochechas rosas e secas.

– Velhice é uma forma errada de esfregar as mãos, disse certo dia alisando o cabelo e chupando uma bala de café para o garoto de banda sentado a seu lado.

O garoto balançou a cabeça porque a melodia saída do fone de ouvido sem fio o fazia lembrar. Ele não tinha colocado em seu Facebook sua citação preferida, mesmo sem ter folheado mais de 3 páginas do livro citado.

José Caspellino achou que o garoto concordava e discursou sobre a arte de envelhecer. O garoto tentou decorar a canção em partitura mental, mas não era capaz de entender a última frase do refrão.

Feliz, ao descer na estação de Lages, José Caspellino apertou a mão do garoto de banda em uma cumplicidade que só ele tinha. Acenou pela janela enquanto o garoto ajeitava o fone dentro da orelha, pensando que não gostaria de ser um velho brega e estranho.

Presença física era algo que ninguém nunca poderia colocar no modo invisível.

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