O dia depois

Publicado: julho 17, 2011 em Contos

Depois que foi embora, sentou-se em frente à parede branca. Por horas, daquelas que passam moribundas entre sons. O braço esquerdo doía porque  tentara em vão agarrar pirilampos que só ela via.

O que mais sentia falta era o conforto do silêncio que tinham. Aquele que evaporava cronômetros. Sentia falta de falar sobre falsas estrelas. Sobre luas crescentes, minguantes ou cheias. De cheiro de pipoca com banha e bolo de micro-ondas.

E por mais que tentasse falar, não mais conseguia. O braço direito agora doía. Às vezes os olhos dela corriam o céu em busca de alguma coisa inédita, como cometas em canções indie. Ou refrões em música de três minutos. Mas só havia a parede branca com seu silêncio em dia.

Entrou escondida dentro da casa dois e ligou o microfone do vizinho. Cantou sustenidos. Cantou alto, cantou baixo, percorreu ritmo e densidade. A parede branca viu. Guardou em memória fotográfica.

Ela diz que está bem, mesmo que não. Ela diz que não sente falta, mesmo que sim. Ela quer calma pra contar nos dedos, mesmo que talvez. Ela, que só ela, sente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s