O Apanhador Só

Publicado: junho 8, 2011 em Contos

Quando arrancaram-lhe o coração, o céu estava épico. Sentiu uma dorzinha na têmpora, leve incômodo.  Não sentiu pesar nem sufocamento. Apenas a imensidão do nada. Estar livre era como estar perdido. Ter um mapa nas mãos quando não se sabe onde é leste ou oeste. Ter uma bússola quando se é cego. Havia o mundo a girar a pé ou a correr, mas não havia mais coração. Teria olhos para ver, ouvidos para perceber, cheiro para sentir, mas lá não havia nada a pulsar mais forte, a suar frio se algo não estivesse perto. Estar sem coração era como fumaça em espelho. O apanhador só talvez fosse andarilho, sem gosto e sem órgão humano. O apanhador só talvez fosse irmão de alguma pessoa que se casaria em breve. O apanhador só era só, pois só talvez fosse enganar bem. De todas as pessoas que perguntei, ninguém ousou dizer que ele era deprimido ou triste. Classificavam-no de leve, solto, um cara feliz porque sorria em dentes alinhados. Mas fui eu que vi naquele dia de céu épico que ele estava de cabeça levantada procurando algo que não sabia explicar. Cheguei bem perto e por um impulso, segurei-lhe a mão.

– Ainda estou a procurar, ele me disse.

– Eu sei, falei.

Só o meu coração bateu. O do apanhador estava dissolvido.

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comentários
  1. “o apanhador no campo de centeio” parece história sobre trabalho infantil, né?

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