Aqueles do além-mar

Publicado: março 22, 2011 em Contos

Quantas coisas podem ser picotadas por pessoas? Quantas coisas podem ser percebidas por tantas pessoas? Qual o peso das palavras para íris?

Ela abriu os olhos em uma manhã de sol escondido. Foi acordada por 3 mensagens de celular: “Você não olha pra você mesma.” “Agora sim eu aprovo.” “Você é dramática e exagerada.”

Piscaria menos vezes se não tivesse fixado um ponto no teto e visualizado os pensamentos dos remetentes ao digitar as frases. Ela era invisível para todos eles. O tipo de invisibilidade de capa. Aquele tipo que aparece quando as pessoas não entendem aquelas coisas que fazemos por instinto, liberdade ou verdade.

Por que ela tinha que seguir o racional? Por que o meio tinha que ditar as regras? Por que repetiam Comporte-se, você não pode fazer tudo?

Se ela não podia fazer tudo, por que as estrelas continuavam a pipocar pontilhadas em suas mãos? Por que as cores não paravam de brilhar quando ela estava encostada na almofada a olhar para a parede sem cor? Por que os pés caminhavam rodopiando em lugares que ninguém mais ia? Por que a dormência em sua cabeça dizia que ela estava indo para o lugar correto?

Não ensine para ele que ele pode fazer qualquer coisa. Não diga que você sabe. Não dobre a coluna dessa forma. Não escreva com essas sílabas. Abaixe o fogo. Aumente a luz. Abaixe os olhos. Aumente a autoestima. Abaixe as sobrancelhas, elas estão muito arqueadas. Aumente sua felicidade. Abaixe o som. Aumente a popularidade. Abaixe sua empolgação. Pague as contas. Compre mais. Essa roupa está estranha. Eu nunca usaria essa capa.

Desligou o celular. Foi para a sala e ligou o projetor. Conectou duas caixinhas portáteis nele e pensou em Caio. Ele estaria do outro lado do mundo. Se ela fosse agora, poderia vê-lo antes do trabalho. Eles tomariam duas cervejas. Ela contaria as estórias do mundo paralelo das coisas que nos fazem bem em toda manhã cinzenta. Ele cantaria aquela música feita de violão e voz. Eles ficariam a olhar as pessoas passarem pela rua e falaria de Júlia. Ela diria para ele acreditar no sonho dela. Ele sorriria e diria que as coisas podiam ser mais simples e que havia desistido do amor. Ela concordaria e tentaria convencê-lo ir buscar Júlia onde quer que estivesse. Ele diria que havia João.

Eles cantariam o som que saía das caixinhas. Uma, duas, três vezes. Ela saberia que por mais que ele estivesse do outro lado do mundo, a morrer de tanto trabalhar, a ter o coração amassado, ele abriria a porta para ela se um dia ela corresse e falasse Posso me esconder por aqui umas horas, my friend? Por mais que anos os separassem, ele era o amigo estrangeiro que tocava no ombro e dizia Ei, hoje eu gravei uma música. Quer ouvir?

E ouvir faria com que as coisas ficassem bem. Porque os amigos de verdade viam a gente como a gente era. E eram deles, espalhados pelo continente, que ela mais sentia falta quando as pessoas julgavam. Era o exemplo deles que ela pensava seguir quando queria ir embora. Eram eles que ela queria estar mais perto. Eram para eles que ela queria ligar quando as coisas boas aconteciam. E eram deles que ela lembrava quando a música a seguia.

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