A FALTA QUE PREENCHE: “Os Famosos e os Duendes da Morte”

Publicado: dezembro 7, 2010 em Resenhas

“Tu não é igual a essa cidade”. “Ele encontrou uma saída”. “Por que tu voltou?”

Esmir Filho é um homem de detalhes. Aquele que retrata solidão e angústia pelas minuciosidades. O interior pela imagem. O toque e o cabelo como partes fundamentais na cinematografia. O não toque também. É pelo vazio que se entende o preenchimento. É pelo não acontecer que a ação torna-se cheia, completa, significativa.

E são os fantasmas que governam a narrativa. Pixelados, num tempo internauta, imortalizados por vídeos amadores. Quase presos pelos momentos de câmeras fotográficas não clicadas. Seguindo os vivos angustiados pela monotonia da tranquildade da cidade. A cidade, espaço onde pessoas transitam. Espaço que conecta pessoas, mas que não as traduzem.

Forquetá não é o símbolo da cidade pequena. É o símbolo do homem pequeno, do homem preso, do homem acostumado a seguir os passos de outros homens que seguiram passos de outros. A tradição da não comunicação. Um lugar onde as pessoas se veem, mas não se enxergam.

É o sinônimo de um mundo atual onde máscaras sociais são usadas para que ninguém veja nada por dentro. Para que os olhos sejam só guardadores de pó, não visualizadores de vontades. Para que olhos não notem as perdas.

………. é o menino de Bob Dylan.  Aquele de Mr. Tambourine, que não dorme, mas que também não tem nenhum lugar para ir. Aquele que fica a olhar um Universo onde ninguém toca canções que mudam as vidas, onde sua essência é assombrada por músicas passadas e fantasmas imortalizados pelo youtube . Quando ele escreve Estar perto não é físico, o perto que ele conhece vem dos mortos da cidade. Do fio quase invisível que os conecta através de Mr Tambourine.

De ritmo lento, Os Famosos e os Duendes da Morte não fala sobre grandes mudanças, transformações sensacionais ou catarse de personas. É um filme de sensações, como Saliva. É um filme de pequenos recortes, de como algumas pessoas enxergam a vida através de uma lente embaçada. É um filme de olhos, de toques incompletos e de como as perdas são assombradas por canções.  E você vai querer ouvir velhas canções de Bob Dylan. De novo. E de novo. E “Se tu sentir saudade, deita na minha cama e olha para o teto do meu quarto (…) Chove toda vez que eu sinto saudade, mas algumas coisas ficam mais bonitas quando se transformam em lembranças. A última caiu, não faz muito tempo. Ela está no bolso de trás da minha calça e vai ficar aqui até quando eu voltar e te abraçar de um jeito tão mais forte do que tu poderá entender”.


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