As unhas de domingo

Publicado: novembro 27, 2010 em Contos

Foi no domingo que ele percebeu que sentia falta dela. Sentia falta de ouvi-la reclamar do esmalte na unha descascando, do odor forte de removedor de cutícula, do sorriso fechado que dizia não, me, beije, ainda, não, escovei, os, dentes.

Ele estava no sofá azul a olhar o teto descamar como ela fazia com o esmalte antes mesmo de passar algodão na unha. Estaria ela pintando as unhas no domingo? Estaria ela a cutilar os pés miúdos?

Um pedaço de tinta desmoronou sobre a mesa do centro. Ele ouviu um ruído do lado de fora, como se ela pudesse ler pensamentos e aparecer com unhas pintadas cheirando a óleo secante. Do lado de fora, o portão batia, como se quem tivesse passado estivesse a brincar com corações arrependidos.

Tentou digitar o nome dela no aparelho portátil. Era tão mais fácil juntar letras que pessoas. Depois apertou o backspace.

A luz não piscava, os olhos não marejavam, a batida do coração estava fininha. A perguntava latejava:

– Mas como é que se escreve mesmo o nome dela?

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