O menino liso

Publicado: novembro 14, 2010 em Contos

Quando ele decidiu parar de esperar o mundo levava nas costas um violão e no pulso um caderno de bolso com uma caneta pendurada, presa com fita amarela. Tinha os pés descalços porque o mundo que criava era de terra sem pedras, de orvalho que massageia a pele, de calos de música.

Quando ele decidiu olhar pro mundo as pessoas piscavam como se tivessem vidros presos nos cílios. Mas elas paravam seus trajetos para vê-lo tocar. Pediam para escrever no caderno e ele deixava.

Nas horas de gelo e nas horas de vapor, ele lia as frases e as frases suspiravam. Vinham com hálitos e cheiros de sonhos. Vinham como as notas que ele dedilhava sem pensar em ritmo.

Foi pelo mundo que ele descobriu que não precisava de muita coisa. Um punhado de pessoas para contar uma estória aqui e acolá. Um punhado de pessoas para ajudar a repartir comida aqui e acolá. E água. Ele precisava de muita água. Podia passar dias sem falar com ninguém, mas não podia passar acúmulos de segundos sem água.

Primeiro ele tentou pedir o líquido pelas casas que passava. Conheceu diversos tipos de copos e de garrafas e de pessoas desconfiadas.  Como um menino liso e de cabelos aloirados anda assim pelo mundo batendo de porta em porta atrás de água?

Depois ele tentou roubar dos animais, pelos riachos e cachoeiras. Como um menino liso e de cabelos aloirados anda assim pelo mundo pegando água de seres silvestres?

Depois tentou pegar dos cactos, mas eles se contorceram como se não fosse palavra vegetal. Como um menino liso e de cabelos aloirados anda assim pelo mundo sem conseguir transformar nível de umidade da terra em água?

Mas ele não conseguia. Água era mais difícil que palavra doada, que música compartilhada, que vida sem roteiro, que existência sem significado.

Tentou grutas, montanhas de cabeça pra baixo, céus de estrangeiros, caminhos de andarilhos, cantis, sóis, luas e tempestades. A água acabava que nem vento em pompa.

Então quando ele achou que seu violão e seu caderno eram menos importantes que a substância química composta de hidrogênio e oxigênio, ele ouviu pelos cantos das conchas que um outro menino estava a procurar um nome para a canção que acabara de compor. Ele andou até o outro menino que possuía copos de água com arte divinatória a seu lado. Escutou a canção com coração leve e reconstruído por fuligens de pensamentos.

O outro menino teve um conselho vindo dele através de um sussurro em ouvido. Como recompensa, o menino liso de cabelos aloirados ganhou os copos divinatórios. Agora toda vez que ele dedilha e alguém pede pra escrever em seu caderno de bolso, ele primeiro oferece um copo de água. Há sempre algo debaixo da superfície. E só ele entende o quê.

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