Para o sono vir

Publicado: novembro 10, 2010 em Contos

O meu avô imaginário dizia ‘Quando você dormir, não esqueça de lembrar tudo que sentiu, da alva hora até a cor ao se deitar’.  Garganta de parede, pele de caneca, língua de jasmim, haste cor de perna.

‘Não conte carneiros, conte coisas. Liberte os bichos, olhe pra dentro do sangue.’

O homem que espirrou tinha esporas. A mulher que esbarrou em mim tinha fio branco no pelo do nariz. O menino que me olhou tinha um cílio bem perto da bochecha. O rapaz que enxerguei atrás do sol tinha uma cascinha de machucado na orelha direita. E eu bebia todos eles como quem engole água filtrada.

‘Quando for dormir, menino, não agarre as coisas, só lembre’

‘Mas vô, se eu não colocá-las pra dentro, elas vão…’

‘Embora?’

‘É’

‘Pois deixa ir, como riso no escuro’

‘E quando eu sentir saudade, o que faço?’

‘Pense no novo dia que vai vir’

‘Mas isso não vai fazer diferença, não é real’

‘ O real é uma questão de percepção’

‘Mas vô…’

‘Feche os olhos e lembre’

Meu avô imaginário partiu em um dia de vento que balança andorinha. E quando eu não sei muito bem o que fazer para o sono vir, eu só fecho os olhos e lembro. As coisas partem. Eu fico.

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comentários
  1. Rafa disse:

    Avós imaginários… Eu bem que poderia ter criado um desses qdo era criança. Afff como senti falta de um! 😀

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