Sismonastia

Publicado: outubro 18, 2010 em Contos

O vento estremecia o pulmão do pai. Ele havia achado o caminho por uma trilha de amoras. As árvores estavam meio retorcidas, como se mandassem recado para o exterior Nem chegue perto. Mas o pai não era teimoso e sim homem de bravura. O filho agarrava a mão como mangueira de borracha descontrolada. Os passos o arrepiavam.

Dizem que por entre as terras há os elementos que mandam recado sobre o perigo. O filho viu uma minhoca repartida. O pai sentiu um cheiro de coisa guardada mofada. O vento assobiou como gritos de porcos. Mas eles não desceram. Continuaram como se a vida dependesse de curiosidade. Como se estremecer fosse questão de sobrevivência. Talvez fosse uma versão latente distorcida do que chamamos de instintivo. Talvez o homem confunda os sinais de alerta com de segurança por pura falta de adrenalina em sua vida rotineira. Talvez escolher o caminho errado seja uma questão biológica. Talvez errar seja uma forma de gritar Eu vivo.

Não havia tempestade nem sinais de vibrações sobre o ar quando eles chegaram perto do abismo. Havia um mar grande, desses que parecem cruzar a África. Que apontam navios de descobrimento na linha do horizonte.

O pai sorriu pro filho que tinha as sobrancelhas levantadas. Seus passos estavam marcados por uma terra molhada de amanhecer. Se o filho pudesse parar o mau tempo ele não teria dado um passo para trás quando o pai perguntou  O que foi.  Mas ele não podia nem devia cruzar as plantas dormideiras, foi o que seus nervos diziam.

O filho viu quando uma mão branca sem física nenhuma fez o pai se desequilibrar. Era coisa de menina morta. O filho correu. A outra mão branca empurrou o pai. Não havia África nem Oceano que pudesse fazer o pai se agarrar aos pequenos arbustos perenes. O filho correu.

Houve uma investigação paranormal sobre o local. Mas ninguém nunca tinha ouvido falar nisso. Concluíram que a estrutura física do menino não dava condições de impelir com violência um adulto. Mas o vento batia forte no lugar e quando todos foram embora e nunca mais lembraram do ocorrido, as dormideiras pararam de reagir à estímulos.

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