Originalmente engarrafado

Publicado: outubro 13, 2010 em Contos

As bombas começaram a cair às 02h35min.  O escritor ainda menino estava debaixo da cama agarrado à premiada obra de Allan Moore, Monstro do Pântano nº4. Tinha custado 35 cruzeiros, em uma época onde dinheiro era papel manchado. Bazucas, carabinas, espingardas, fuzis de pólvora negra, granada, mosquetão, rifles, submetralhadoras jorravam fogo. O poder do som mais dilacerante que as palavras.

O escritor ainda menino não chorava nem tampava os ouvidos. Ele estava abraçado às páginas empoeiradas, agarrado à imagens do homem planta com a mulher de cabelo branco com faixa preta. Olhos verde-acinzentados com pequenas manchas ocres no redor do centro. Ninguém tinha tirado aquele corpinho debaixo da cama. Ninguém estava a perguntar Onde está o escritor? Ninguém havia lido uma frase sequer ainda dele.

Ele ainda era menino, daqueles que tem o cabelo arrepiado na parte de trás, que não gosta de escovar os dentes para não parar ao virar a próxima página. Do som que preenchia o quarto ninguém soube ao certo quanto tempo durou. Além de buracos nas paredes e pedaços de concreto espalhados por todo o chão, havia riscos como se alguém brincasse com giz. Alguém disse que dias depois percebeu que uma mão havia percorrido o piso debaixo da cama escrevendo aleatoriamente palavras que qualquer outro ninguém não entenderia. Deveria ser uma mão pequena, de traços difíceis e com unhas roídas.

“THULLUP”

“UBLUP”

“GUG”

“PAPLAP”

“SQUELK THROOP”

“SPAK”

Foi na Noite dos mortos-vivos que o escritor ainda menino não correu pra casa quando ela começou a pegar fogo. Foi na Noite dos mortos-vivos que ele aprendeu a não ter o futuro, a não esconder o passado, a não sorrir no presente. Foi na Noite dos mortos-vivos que seus galhos se desdobraram e sob o peso insuportável daquilo gerado ele se transformou num labirinto de pessoas vivas. Originalmente engarrafado.

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comentários
  1. Uau! Ficou bom isso aqui, hein?! Curti! E vou colocar nos favoritos do MUITOS EM UM 😉
    Bjoks, Hanny! Saudades!

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