O rubor da circulação periférica

Publicado: setembro 30, 2010 em Contos
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Eval estava deitado na cama, pálpebras arregaladas, esclerótica branca a mirar um ponto no teto. Era um risco, como se alguém tivesse esmagado um mosquito e com a pressão o sangue se transformara em rastro preto, deixando na tinta branca uma decomposição permanente.

Ele não pensava rápido pela manhã.

Eval estava ainda a olhar para cima quando percebeu que não podia se mexer. Nenhum músculo obedecia os comandos de seu cérebro. Mas ele ainda sentia o cheiro da manta envelhecida e de como brigara com ela por não ter comprado um edredom.

– Mas é antialérgico, amor.

– Fede.

Não fedia, mas mantas davam bolinhas e ele achava que bolinhas levantavam seus pelos, irritando-os. Era sua neurose secreta.

Tentou mirar um outro ponto e pedir à mente que mexesse sua bacia. Nada. Tentou contrair as gorduras da região pélvica. Em vão. Sentiu cócegas no meio das costas. Dessas que sobem e descem.

Ela estava com cólicas, ele percebeu. Um pequeno gemido de dor antes de abrir os olhos, clássico movimento mensal feminino. Ela virou para ele e sorriu como bom dia de médico.

– Amor, acho que morri.

– Como assim, Eval?

– Não sinto mais meu pinto.

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