Moleskine

Publicado: novembro 27, 2006 em Contos
Ele ouvia Kate Bush, Babooshka na rádio ambiente do trabalho. Queria ser roteirista. Ter suas idéias compradas por Bollywood. Rejeitava o sonho americano.

Acabara de ler que em nome do Islã, exércitos recrutados tinham fundado um novo Império, o Califado, que incluiu grande parte do território Bizantino e todo o Sassânida (onde é hoje o Irã e Iraque, mais a Ásia Central adentro), e estendeu-se da Ásia Central até a Espanha. Agora sempre divagava sobre a cultura dos povos árabes, já que sua ignorância histórica acabara levando-o a comprar um livro para desvendar a razão de tantos corpos mutilados hoje em dia. Na verdade, só havia comprado o livro porque fora influenciado por um documentário sobre um homem-bomba.

Ele achava que muçulmanos eram cidadãos e não seguidores de uma religião. Quão grande foi sua surpresa ao lembrar do livro e ver um alvoroço no saguão do local onde trabalhava.

Regra 7 de todo roteirista aspirante: eles sempre têm um emprego estável para pagar suas idas a filmes cult e festivais internacionais. Betinho abraçou seu Moleskine, pois ele se sentia meio Baudelaire naquele ano. 9 euros era dinheiro pouco para Europa, mas 150 reais era dinheiro mais caro que seu dentista no Brasil.

Dentro da Bovespa um homem saído de um Califado da 25 de Março gritava que ia explodir o banco.

Merda, Betinho se abaixou.

No café da manhã havia tirado um biscoitinho da sorte que dizia que idéias não permanecem em certas cabeças por muito tempo porque não gostam de confinamento solitário.

Ficou tentando adivinhar de onde vinha aquele homem cabeludo que tinha fita crepe agarrada a seu corpo. Descendente do Império Bizantino ou o Sassânida? Será que ele também havia estudado sobre a vida de Ibn Khaldun?

O homem gritava que queria que o prédio fosse esvaziado. Betinho queria escrever em seu Moleskine. E se ele morresse ali? O caderno seria salvo?

Sua idéia saiu de seu confinamento solitário particular e Betinho levantou seus braços, gritando para o suposto homem-bomba:

# Islã é a religião que segue o Corão!

Dane-se se ele explodir a Bolsa de Valores de São Paulo! O que são investimentos quando se tem Moleskines inspiradores? O segurança repetiu a frase para o homem todo de preto.

# Islã é a religião que segue o Corão.

O homem-bomba brasileiro respondeu:

# Eu vou acionar os explosivos!

# O mundo de Ibn Khaldun pode parecer eterno, colega, mas esse mundo foi substituído, gritou Betinho.

O homem-bomba que havia comprado uma toca do tipo ninja deu um passo atrás.

A polícia interditou a XV de Novembro. As dependências do pregão paulista não chegaram a ser evacuadas e os negócios não foram suspensos em nenhum momento. Betinho continuou a falar sobre a explosiva situação do Oriente Médio. O homem-bomba, que se dizia ex-jornalista disse baixinho que só queria chamar atenção da mídia para poder fazer um filme contra o sistema financeiro. Betinho e o homem-bomba apertaram as mãos no hall do prédio. Se o filme fosse feito, Betinho seria o roteirista.

Às 17h20 o futuro cineasta se entregou. Por ter sido pego em flagrante pode pegar de um a três anos de detenção por causa do incidente. Cronograma estipulado para Betinho agilizar seus amigos produtores e escrever o primeiro draft de sua vida.

Agradeceu mentalmente Ibn. Seu povo pertencia a uma cultura de extraordinária riqueza.

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comentários
  1. Serjones disse:

    Roteiristas geralmente não batem muito bem.

  2. Artur. disse:

    Babooshka, Babooshka, Babooshka yaaah yaaahh!

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