A câmara de Heliópolis

Publicado: agosto 14, 2006 em Contos
Bruno abriu a câmara de Heliópolis. Lá dentro o ar era rarefeito. Bolas de gás, algum fanático havia feito um evento por ali. Bolas vermelhas e amarelas, perfeitos círculos. Era preciso respirar pela boca. A luz era amarela fosca e o suor descia pelos ares de seus óculos. Gotas sudoríparas encharcavam a camiseta A verdade está lá fora.

Bruno esperou uma vida e meia para achar a resposta. Teve que se tornar um serial killer de rãs para poder pegar o criador de animais que era abduzido. Teve que sair com 27 piranhas para ser contaminado por uma doença raríssima que só os escolhidos podiam se curar. Arrancou seus sisos com um dentista xamã e freqüentou templos budistas para compreender os sinais marcados no topo da cabeça dos seguidores.

A câmara era a pista mais próxima que tinha da sociedade brasileira de abduzidos desmemoriados que freqüentavam a Baixada em prol da ativação do vulcão extinto.

Nova Iguaçu era o centro de equilíbrio do mundo, segundo sua teoria. Foi por causa do município que o tratado de Kioto teve efeito no Brasil. Foi aqui que o vulcão foi achado. Foi aqui que o lixo era reciclado de forma alienígena.

Bruno teve certeza quando o prefeito foi eleito e fez o sinal Spokiano para os eleitores em um show de pagode.

Faltava achar o documento que provaria sua grande descoberta científica. Sua dissertação de mestrado seria patrocinada pelo CNPQ rapidamente. Pessoas lutariam para tê-lo em bancas examinadoras sobre a vida extraterrena. Ele seria o juiz de todos os casos. Teria o mérito de um cidadão exemplar. Conquistaria o sorriso de Glorinha.

A porta era pesada. Fechou com força atrás de si. Para chegar ao alçapão, Bruno se arrastou. Pegou um pedaço de corda e desceu. Pensou em Jerônimo, em Mulder, mas se sentiu um MaGyver. No fim da corda, um botão. Piscava aleatoriamente algumas consoantes.

Ele encostou a testa para ler mais perto. Era chinês? Árabe? Aramaico? Espanhol?

Como sempre fazia quando ia instalar um programa em seu velho Macintosh, apertou todas as vezes que uma frase nova aparecia.

Em 25 segundos o botão parou e o ar rarefeito encheu-se de oxigênio. Uma outra porta abriu e vários papéis começaram a se decompor. Uma chama flamejante atingiu uma estante de livros que estava no meio da porta.

Bruno ajeitou seus óculos, apagou o fogo com uma flanela de dois reais. Retirou todo o ferro torto e os papéis com cheiro de ácaros mortos. A porta dava para o jardim zoológico do outro lado do estado.

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comentários
  1. c.k. disse:

    olá.estou aqui por um link em um comentário seu no blog do andré (garibada)lendo seus escritos, me lembrei de um filme antológico que vi, Brazil-O Filme , filme de narrativa do tipo fantástica, em que o protagonista era um burocrata que se apaixona por uma terrorista. tudo com bastante sarcasmo… se ainda não assistiu-o, recomendo-lhe.abs,c.k.

  2. Artur disse:

    hahahahahaai hanny. só tu mesmo. adorei!

  3. Muito bom texto de fácil leitura e extremamente criativo.Parabéns! Voltarei sempre que puder!Abraços!

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