Feliz dia dos pais para meninas sem pais

Publicado: agosto 13, 2006 em Contos
Ana Carolina estava na aula de português. Em sua carteira 24 lápis de cor. Enfileirados por ordem de tamanho. À sua frente, uma professora de cabelos longos repetia o verbo no pretérito perfeito. Ana Carolina se concentrou. As palavras eram repetidas em sua mente: “Eu corri, tu correste, ele correu…”

Focalizou o lápis metálico azul. O amarelo tremeu. Seus olhos diminuíram e o vermelho caiu da mesa.

# Todos comigo, classe: Eu parti, tu partiste, ele partiu.

Ana Carolina fechou os olhos. O cinza tremeu, mas foi o roxo que ficou em pé. Pairou em frente a seus olhos por dois milésimos, então ela abriu os olhos e ele voou em direção a menina de sua frente.

# Ai, garota!

# Me empresta sua borracha, Elaine?

# Não precisa me futucar com o lápis, Ana. É só pedir.

Ana Carolina enfileirou novamente 12 lápis. Precisava de mais concentração. Precisava de vozes em uníssono.

# Agora o pretérito mais que perfeito! Eu encontrara, tu encontraras, ele encontrara.

Ana mudou a tática e piscou várias vezes. Um, dois, três lápis tremeram.

# Vós encontrareis, eles encontraram!

Bum. A fenda abriu-se. “Eles encontraram!”, dito pela professora pairou no ar. Elaine mexendo no cabelo ficou em suspenso por um segundo.

A princípio, Ana Carolina se encolheu, de susto. Mas depois viu que o lápis branco dançava a sua frente e bem no meio da sala, uma fenda de energia. Um barulho de caixa de supermercado.

Os lápis intensificaram seus movimentos e agora faziam X e Y perante a fenda. Ana colocou seu dedo, as moléculas de seu corpo vibraram. Mesmo assim, por ser um ser humano nato da espécie, avançou. A voz de seu tio penetrou em sua lembrança: ‘A curiosidade enganou o gato e mandou uma gargalhada para os humanos’. Seus cabelos foram os primeiros a serem puxados pela força magnética da fenda. Logo em seguida suas mãos e em dois milésimos, seu corpo sumira do espaço da sala.

A voz da professora voltou para o ambiente.

# Agora todos vamos pegar os lápis de cor e desenhar um cartão para os pais. Bem, escrevam antes aí: Um pai se importa com as coisas que são importantes para a gente…

Crianças obedeciam. Canetas desvirginavam os papéis. Na carteira de Ana, os 24 lápis estavam enfileirados por ordem de tamanho, mas no meio deles, um galho de árvore e um fio de cabelo.

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comentários
  1. E ninguem viu nada? Surpreendente.

  2. Polly disse:

    gostei gostei gostei…conseguiu prender minha atenção até o fim!!!

  3. Artur disse:

    interessante.precisei ler duas vezes pra pegar a verdadeira essencia. e acho que conseguibeijos

  4. Rafaela disse:

    Ai Hanny, vc já sabe a minha interpretação louca para esse texto, né?heheheheheebjs

  5. André disse:

    Vou procurar um portal no meu porta-lápis! Mas vai faltar o ritual…

  6. cada dia mais maravilhosos, fantasiosos…eu quase pude me ver na carteira da escola, na terceira série, com meus lápis de cor do tarzan –‘bah.. excelente!beijos

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