Vida bela

Publicado: julho 26, 2006 em Contos
Eires apertou os passos. Antes de atravessar a avenida, jogou o jornal no grande alçapão. Contou até 3, respirou fundo e correu. Grossos pingos de chuva banhavam seu corpo.

A teoria humana é de que quanto mais você corre, mais molhado fica. Os pingos o encharcavam porque ele ganhava velocidade. Nunca ia conseguir andar calmamente enquanto o céu se abria. Trovões, nuvens carregadas e aves noturnas suspendiam o beco. Nunca teve medo de nada. Conhecia sua cidade mais do que a palma da mão de seu pai que cismava em perguntar, toda vez que Eires o visitava, se a linha da vida de um velho diminuia conforme os dias vividos.

No beco, não chovia. Um pé
lá e outro na rua. Um seco e outro enlameado. Eires coçou o nariz. Sua rinite era alérgica. Alérgica à situações constrangedoras. Eires se sentia constrangido porque era o único que estava com os pés no limiar. Teria ele saído da Caverna? Teria ele vivido as sombras de Platão? Como todo digníssimo pretendente à sofista, colocou os dois pés no beco. Céu limpo. Pigarreou.

# Alguém no beco?

Um pigarro respondeu: # Alguém no beco?

Eires: # Quem é você?
A voz: # Quem é você?

Caixa de Pandora? Eires não ia ficar brincando. Colocou os pés para fora do beco, mas a sombra o puxou.

# Quem é você?

Eires tentou se soltar, mas algo o sufocou. A sombra enfiava um lenço umedecido dentro de sua garganta, sangue escorria pelo dorso de seu corpo.

A sombra: # Quem é você?

Os olhos de Eires abriram e fecharam. Quanto mais ele tentava se soltar, mais o pano entrava boca a dentro. A coisa começou a ficar preta.
“Então é isso morrer? Mas eu ainda estou pensando!”

A sombra o prendia com mais força.

# Quem é você?

Em seu suposto segundo vital, ele viu seu pai mostrando a linha da vida de seu sobrinho. A beleza da vida não estava no céu nem dentro do humano e sim nos olhos daqueles que nos cercam e nos amam. Em seu pai mastigando uma goiaba, em seu sobrinho colocando cerol na pipa, em seu bocejo pela manhã seguinte.

# Quem é você?

A sombra o asfixiava. Viu seu corpo e sua pele roxa. Seu pensamento ainda estava lá.

“Não quero que me vejam morto em um beco.” “Quantas coisas ainda não cheirei?”

A sombra quebraria seu pescoço nos próximos segundos. O pensamento de Eires explodiu quando viu que a sombra estava mais próxima.

# Eu sou Eires. Quero viver. Não quero morrer ainda.

O beco se abriu. A chuva torrencial despencou em sua cabeça. Eires abriu e fechou as mãos. Sangue escorria face abaixo.

# Quero viver, ele sussurrava em pensamentos.

Saiu do beco se arrastando, sem forças para explicar, sem suor para correr. Os pingos de chuva atingiam sua pele esporadicamente. Atrás de si, as sombras se escondiam.

“Vida bela”, queria dizer.
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comentários
  1. você consegue emaranhar o leitor na história de uma forma extraordinária :)adorei!

  2. Rafaela disse:

    gosto de vc mais mundana do que filosófica…mas gostei do texto!!!

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