Foi a única pessoa que conheci que havia brincado com dragões. Disse-me que morara em uma pequena vila no norte da Irlanda, como se Irlanda também fosse seu lugar especial. O lugar que você sempre quis ir porque acreditava que as árvores de lá eram mais mágicas. Filho da puta de Saint Patrick.
Cozinhei feijão vermelho pra ele enquanto me contava sobre os séculos. Ia chover, deveria chover, porque as estórias eram melhor contadas quando se tem umidade no ar. Mas o tempo apenas engrossou.
- A lembrança mais forte que tenho quando criança é a imagem da irmãzinha de uma amiga colocando cinco palitos de fósforo na boca dizendo que estava fumando, eu disse querendo dividir minha experiência com fogo.
- A lembrança mais forte que tenho quando criança é a imagem de um pequeno dragão e a fumaça das ventanas, que também lembrava pequenos fósforos, ele disse, adivinhando que compartilhar era mais legal do que contar vantagem.
Mas ele já estava com o número elevado à potência quatro comigo porque ninguém que conheço tinha visto dragões.
- Existia mesmo?
- Sim, existia.
- Nossa, foi a resposta mais idiota que dei.
- Às vezes eles passeavam pelos braços, é como se fosse um pequeno galo andando sobre a pele.
- Um rato já passou por cima do meu pé.
Ele riu.
O homem que estava à minha frente tinha aqueles anos enrugados dentro do coração. Ele vira o que eu só sabia por filme e documentário de tv fechada e tinha abraçado todas as pessoas que amara mais de uma vez porque acreditava que morrer era apenas um pequeno pedaço do processo. Eu, brigava com as pessoas e não sabia o que fazer depois e deixava escapar todas as possibilidades de dizer que as amava. Era por isso que eu tinha o emprego que tinha.
Encontrei esse moço dentro de um quadro, batendo na madeira, no porão de uma casa que me contratou para jogar fora grandes quinquilharias. Porque eu, como qualquer pessoa de talento de prata, tenho emprego, mas pertenço a outra vocação. Alguns dizem que sou gravurista. Mas se a empresa de luz souber disso, ela me tira todo o fornecimento elétrico, então por isso eu arrumo a casa dos outros. Essas casas bem velhas onde os bichos de estimação são criaturas peçonhentas.
Como eu disse, ele estava dentro do quadro e acho que tava quase desmaiando com falta de ar porque quando rasguei o fundo da moldura ele deu um longo respiro engolindo ar (daqueles que damos quando vamos no fundo da piscina e voltamos desesperados porque calculamos errado a profundidade) e me agradeceu.
Foi aí que descobri que sintonia só acontece quando não se espera. Foi o silêncio mais apaziguador da minha vida. Ele lá, respirando e eu atrás de uma aranha que entrara na caixa que havia sido organizada para ser doada a museus. Ele me ensinou um truque mudo e eu sorri, desses sorrisos inesperados. A aranha voltou ao lar e nós lacramos a caixa. Não tinha como não chamá-lo para jantar.
E ele me contou todas as aventuras. E as aventuras viraram frames dentro de minha cabeça. E minha cabeça projetou todas as possibilidades que desperdiçamos quando a vida diz Agarre-se ao que acredita e vá e ficamos em casa calculando a prestação X da máquina de lavar mais útil e o número W da festa que quero produzir para aqueles que nem são tão meus amigos, mas que finjo acreditar pra não ter medo da solidão.
- As pessoas me contam os dias delas, não sei porquê. Às vezes eu acho meio inútil, às vezes eu tenho a sensação de que elas apenas precisam falar, que não há nada mesmo pra falar, mas elas continuam. E tenho eu a impressão de que vamos todos morrer sentados, sem viver.
- Não precisa falar, a gente pode dividir silêncio e sorrir.
- Eu posso não falar?
- Sim.
- Ai, isso seria um alívio.
E assim foram as horas, dessas tão mágicas quanto a Irlanda. Depois ele me pediu que eu mostrasse algo que só eu ouvia e não mostrava pra ninguém. E a gente ficou sentado ouvindo The Strokes:
ahuahuahua, me sentado ouvindo strokes…